Amanhã longa de emoções contidas durou até que os sinos da Basílica de Santa Maria tocaram sem parar. Os rostos carregados que cobriam a Praça João Paulo II, em redor da igreja onde o pequeno Karol Wotjtyla foi baptizado e fez a comunhão, fixaram ainda mais o ecrã gigante e quase ninguém controlou as lágrimas.
Na praça principal da pequena cidade que viu nascer o Papa estavam 15 mil pessoas com os olhos no Vaticano e o coração em Wadowice. "É uma emoção muito forte, estar aqui a ver João Paulo II ser enterrado", diz Danuta Kaczamarek, com o rosto ainda molhado, que chegou bem cedo com o marido Maciej e a filha Oliwia para garantir a primeira fila. Maciej aperta de novo a mão de Danuta e acena com a cabeça "Já sabíamos que não íamos conseguir aguentar. O Papa era tudo para a nossa família, era tudo para esta terra".
"Ele trouxe-nos o orgulho de sermos polacos", acrescenta Danuta. A pequena Oliwia brinca com a foto da Papa que hoje só se vendia, timidamente, num ou noutro canto da praça.
Um dia excepcional para a cidade onde o comércio, que ontem encerrou em massa, vive quase só da imagem de João Paulo II. Cafés e restaurantes não abriram e os transportes públicos também foram cancelados. Só ao final do dia meia dúzia de "Opominki" carregadas de ingénuos "souvenirs" começaram a ter filas à porta. Tal como nas duas pastelarias que muitas horas depois da celebração mataram a fome aos peregrinos com o famoso "kremowki papieskie", uma espécie de mil-folhas adorado pelo jovem Wotjtyla, quando ainda era "Lolek" para os mais íntimos.
Ao lado da Basílica de Santa Maria, um templo carregado de mais referências ao Papa, milhares de lamparinas iam cobrindo a rua Koscielna. Só a entrada do número 7 foi deixada livre. Ali, onde Karol Wotjtyla nasceu, só as flores repousavam no pátio interior. Ao lado, no palanque onde depois do enterro se celebraria outra missa, a cadeira de braços onde João Paulo II se sentou nas suas visitas a Wadowice permaneceu vazia, cruzada apenas com uma fita negra e uma coroa de flores amarelas e brancas.
Não há peregrino que não fotografe o cadeirão de madeira clara. Nem a estátua, ao lado da Basílica, com o busto de João Paulo II. Aparentemente alheada do ambiente da praça, Janek Chorzewski tem 16 anos e assiste ao desenrolar das cerimónias sentada com duas amigas na montra de uma loja. A indiferença é, no entanto, aparente. Janek está afastada porque, confessa, "não aguentava estar no meio da praça, a ver o Papa a ser enterrado".
As duas amigas escondem o rosto com o cabelo longo e não dizem uma palavra. Janek vive nos arredores de Wadowice, em Tomice, e só viu João Paulo II uma vez. "Foi há três anos, era ainda mais nova e não entendi muito do que ele disse". A figura de João Paulo II marcaria, contudo, a jovem de botas militares dois números acima do seu, calças e blusão negros. "Ele adorava a juventude e para nós, polacos, além dos nossos músicos preferidos também temos o Papa como ídolo. E quando se perde um ídolo é muito triste".