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A alma e O segredo da casa da Música

Helena Teixeira da Silva

ACasa da Música vai colocar a música à flor da pele; não vai servir para um desfile de peles", assegura Pedro Abrunhosa sobre o equipamento do Porto que cresceu a tropeçar nospróprios pés, que foi julgado antes de estar concluído, e que deixa para trás uma derrapagem orçamental que começou em 46 milhões de euros e hoje atinge os 100. Abre hoje, finalmente, quatro anos depois da primeira data prevista,as portas ao público da cidade. E as janelas ao mundo. "É a Casa por onde toda a gente, mais cedo ou mais tarde, há-de passar".

A visita não terá que ser instantânea; o exame não se fará a curto prazo. "Os concertos de abertura já estão esgotados, mas isso não conta", alerta António Pinho Vargas. Para o músico, cujo alvo de investimento é, depois do jazz, a composição erudita contemporânea, "o fenómeno da moda é uma possibilidade real. Em Portugal, ainda há muito o culto do acontecimento". Por isso, "a avaliação só deverá ser feita daqui a algum tempo. Se daqui a cinco anos, a afluência à Casa continuar, a música terá deixado de ser uma moda, passando a ser um valor adquirido".

É essa alteração no consumo musical do país que aguarda, expectante, Vitorino de Almeida, maestro que compôs "Abertura festiva", peça que a Orquestra Nacional do Porto executará amanhã, às 21 horas. "Tenho uma confiança quase ilimitada no público e neste projecto". Sublinhando a ideia de que a Casa é a casa de todos, o maestro agregará à orquestra uma bateria e uma guitarra eléctrica. "É preciso saber dar as coisas às pessoas", justifica. "Não basta apresentar coisas boas. A Gulbenkian traz cá o melhor que se faz no mundo e ninguém percebe. A gestão da programação será a alma e o segredo da Casa", receita. E avisa "É essencial ter um músico na direcção artística. Nem musicólogos nem melómanos. Eu também gosto muito de futebol e nem por isso vou treinar o Benfica", ironiza.

A Casa de que passará a beneficiar o público é a mesma que representa agora uma "responsabilidade acrescida para os artistas", afirma António Rosado. Para o pianista, que a revista francesa Diapason definiu recentemente como um "intérprete que tem tanto de emoção e de poesia, como de cor e de bom gosto", caberá aos músicos "alimentar a novidade e dotá-la de qualidade". Esse critério, afirma, "servirá para captar novos públicos, e também para afastar, definitivamente, outros. Mas com a vantagem de não poderem fugir na ignorância do que é a música".

A qualidade existe, mas vivia hermeticamente escondida no rectângulo nacional, acredita João Vieira, reconhecido DJ Kitten. "Numa comparação directa com o que vejo em Inglaterra ou em França, aqui há uma cultura musical muito avançada. Somos dos países europeus que consome mais música alternativa". A Casa será "um importante veículo de comunicação para mostrar lá fora o que se faz cá dentro". E será um motor fundamental na inversão da temática a exportar. "Até aqui, só se vendia fado, que é relevante, mas deprimente. Não somos só isso. Agora, estão abertas as possibilidades para o intercâmbio com músicos, produtores e DJ". O entendimento é corroborado por João Carvalho, organizador do Festival de Paredes de Coura "Se a Casa alterasse o consumo da música, apenas, no Porto, já não seria mau. Mas terá um impacto maior. A história do país há-de registar um 'antes' e um 'depois' da Casa da Música".

Álvaro Malta não está tão seguro do sucesso. Na opinião do cantor lírico, que já esgotou o Coliseu, o Rivoli e a Trindade, "o facto de se construir uma casa para a música não significa que se faça música melhor". Malta não perdoa a ausência do fosso de orquestra. "Tudo aquilo que pode ser extraordinariamente belo na música está automaticamente posto de lado ou prejudicado na sua apresentação". E questiona "O conforto da sala é suficiente para cativar as pessoas?".

Antes que o futuro responda - não pelo conforto, mas pela qualidade -, Adolfo Luxúria Canibal, líder dos Mão Morta, acrescenta outra falha. "Colocar as cabinas de som no tecto da sala é bom para gravações, mas mau para os espectadores. E repete-se o erro com a mesa de mistura colocada no meio da sala [caso do concerto de hoje de Lou Reed], haverá sempre duas filas de bilhetes que não se poderão vender, porque não têm visibilidade". Apesar disso, a figura do rock português, não duvida que "daqui a dez anos a Casa da Música terá tido um papel crucial na formação de públicos".

"Se não voltar a ser tomada de assalto por políticos que se querem por em bicos de pés, se a gestão for entregue às pessoas que sabem exactamente o que é música, a Casa está condenada ao sucesso", retorna Pedro Abrunhosa. "A Casa da Música existe", sublinha, "porque houve um homem que a sonhou. E esse homem é Pedro Burmester". O pianista estará, sem estar, presente na inauguração. "O meu concerto [dia 20] é para ele", adianta o autor de "Tudo o que eu te dou". O de Emmanuel Nunes, depois de amanhã, também.

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