"Alguém me protegeu. Deus existe. Alguém olhou por mim. Pode ter a certeza". A voz de Isaura Martins é calma, mas ainda sai embargada pela recordação da explosão que lhe destruiu a casa e matou dois vizinhos. Morava no segundo andar do prédio que desmoronou na Rua de Santa Catarina, anteontem, pelas 21 horas. Trinta minutos antes da tragédia tinha estado na casa dos idosos que viriam a falecer. E foi uma conversa na rua, quando ia chamar o filho mais novo para jantar, que a salvou. "Alguém me protegeu", insiste.
"Às 20.30 horas tinha estado a dar a sopa à dona Adelaide. Saí, depois, para chamar o meu filho, que estava em casa de um colega. Ao passar na Fontinha, um senhor amigo chamou-me. Quando estávamos a conversar, ouviu-se uma grande explosão. Parecia uma bomba. Desci a rua e vi o meu prédio destruído. A minha maior preocupação foi saber se o meu outro filho já tinha chegado. Mas não. Estava na Praça da República", recorda Isaura Martins, 56 anos.
Os filhos - Miguel, 24 anos, estudante, e Simão, 31 anos, polícia - não estavam em casa. Nem o casal que morava no 2º/traseiras. Nem o senhorio, que morava no 1º traseiras. Só Narciso e Adelaide Caldeira, ambos de 77 anos, ela acamada, estavam em casa. E morreram. "Conhecia-os há muitos anos. Eles já moravam ali há 46 anos e eu há 33", continua.
Isaura Martins, que perdeu o marido há três anos, vítima de doença prolongada, tratava de Adelaide. Dava-lhe o pequeno-almoço, almoço e jantar. Contava-lhe anedotas, porque gostava de a ver sorrir. Anteontem à noite, deixou-a a ver televisão. Narciso Caldeira ficou na sala. Isaura foi chamar o filho e adiantar serviço aos escritórios que tinha de limpar na manhã seguinte.
A explosão haveria de lhe alterar a rotina. Ficou sem nada. "Só fiquei com a blusa e as calças com que estava. E o telemóvel", diz Isaura, natural de Pico de Regalados, em Vila Verde. "Na minha terra ficou tudo em pânico. Hoje [ontem] o telefone não parou de tocar", diz Isaura Martins, que, agora, só pede uma casa. Não quer ficar a viver por tempo indefinido numa residencial.
Também Manuel Marcelino recusa a ideia de ficar sem tecto e espera que "a Câmara ou o senhorio arranjem uma casa". Alojado na mesma residencial de Isaura, depois de passar a noite "à base de oito cafés", o homem só encontrou alojamento depois de denunciar aos jornalistas que corria o risco de ficar na rua.
"Ninguém nos liga nenhuma. Só nos dizem que não podemos passar. O polícia nem me deixa explicar que tenho de ir a casa buscar qualquer coisa para vestir", lamentava, ontem, de manhã, com ar pouco revindicativo e muito desolado. Ao fim da tarde, o homem agradecia aos jornalistas por ter sido realojado numa pensão. E prometia não dar "descanso nem ao Rio nem ao senhorio" enquanto não tiver, de novo, um lar.
Manuel Marcelino vivia, há 30 anos, no número 894, três imóveis adiante do destruído, e viu a mulher, Isaura Daniel, e os seus filhos "andarem pelo ar quando se deu a explosão". Por sorte, os sogros, com quem vive, estavam "na aldeia, em Gouveia". Ontem, queriam regressar. Mas ficaram. "Para quê? Para ver tudo em cacos?", justificou. Soube-se, depois, que a casa onde morava Marcelino e família será demolida. Os riscos são muitos.
Quem não sabe quando regressa a casa nem "o que o futuro lhe reserva" é Carolina Duarte. Proprietária do imóvel contíguo ao da explosão, no número 868, Carolina, jornalista da Rádio Renascença, tinha acabado de transmitir, por telefone, um trabalho quando sentiu "tudo a tremer". "Vi o meufilho de seis a ser projectado pelo impacto. Aos gritos, tentei protegê-lo. Acabámos sentados no chão, a tremer, a olhar em volta e a ver tudo destruído", contou.
Em casa de familiares, angustiada e dizendo-se "sozinha", a jornalista criticava, ontem, "algum excesso de zelo" de funcionários da Protecção Civil e da Polícia.
"Tive de contar coisas da minha privacidade para conseguir ir a casa buscar coisas importantes. Sofremos um choque. Merecíamos ser tratados como gente", disse, lamentando "o abandono a que os moradores foram votados".