Paulo Dâmaso
Uma peça de uma escultura integrada numa exposição de arte contemporânea, patente no Centro de artes e Espectáculos (CAE), da Figueira da Foz, dada como desaparecida, na última semana de Dezembro, foi "mandada para o lixo por engano" admitiu, ao JN, uma empregada da empresa responsável pela limpeza daquele equipamento cultural.
A peça - os "cacos" como já é conhecida - faz parte de um lavatório com um dos cantos partido e estava colocada junto a este, no chão da sala de exposições.
A obra de arte, intitulada "As Frases", é da autoria do artista plástico e poeta Jimmie Durham, norte-americano descendente dos índios Cherokee.
"Não foi por mal que coloquei os cacos no contentor. Foi um engano" confessou, ao JN, a auxiliar de limpeza. "Pensei que aquilo (os cacos) fosse lixo de obras que estivessem a decorrer no Centro", contou.
Só que o alegado "lixo" vale alguns "milhares de euros" e pertence à obra de Jimmie Durham incluída na exposição organizada pelo Centro Cultural de Belém (CCB) intitulada "Eu, tu, eles", baseada num conjunto de peças, de artistas nacionais e estrangeiros, da colecção de arte contemporânea do Instituto das Artes (IA).
De pá e vassoura
"Vi os cacos no chão. Perguntei a uma colega se eram para deitar fora. Ela disse-me que sim e eu limitei-me a pegar na pá e na vassoura e a deitar tudo no contentor" revelou ainda a funcionária.
Ouvido pelo JN, o administrador do Centro de Artes e Espectáculos, Nuno Encarnação, não quis tecer qualquer comentário sobre o assunto. "Está a decorrer um inquérito para apurar responsabilidades. Enquanto os resultados, que deverão sair na próxima semana, não forem revelados não me irei pronunciar sobre este caso" disse.
O silêncio foi também mantido pelo Instituto das Artes, que é o proprietário da referida obra de arte.
Situação insólita
Já o director do Centro de Exposições do CCB, Delfim Sardo, classificou a situação de "insólita". "Tivemos o cuidado de informar a equipa de limpeza que estava no local quando montamos a exposição que aquilo (cacos) fazia parte da obra" disse, ao JN, Sardo afirmando que o sucedido "não irá prejudicar o bom relacionamento entre as duas instituições".
Gafes idênticas executadas em Londres e na Alemanha
Em Junho, o empregado de limpeza da galeria de arte londrina Tate Britain também foi protagonista de uma "estória" semelhante. Confundindo com lixo um saco de plástico com cartão e papel amarrotado que fazia parte da instalação "Recreation of First Public Demonstration of Auto-Destructive Art", actualização do original do artista plástico alemão Gustav Metzger (1926) incluída na mostra "Art and the 60s - This Was Tomorrow", o funcionário deitou-o fora, mas foi recuperado antes de ser destruído. Nos anos 80, numa galeria alemã, uma banheira suja, parte de uma instalação de Joseph Beuys foi esfregada até à exaustão. Em 2001, na Eyestorm Gallery (Londres), foi para o lixo uma instalação de Damien Hirst composta por cinzeiros sujos e garrafas vazias.