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Maioria venceu medo de ir votar

* com agências

As ameaças terroristas não impediram os iraquianos de acorrerem ontem às urnas em número superior ao esperado - cerca de 60% dos mais de 14 milhões de iraquianos inscritos, segundo as últimas estimativas da Comissão Eleitoral, cuja confirmação por parte de observadores independentes não é possível. No entanto, tudo indica que parte muito significativa da população iraquiana venceu o medo e quis mostrar que pretende, no futuro, ter voz activa na orientação do seu país. Foi o suficiente para permitir aos principais mentores da invasão, George W. Bush e Tony Blair, discursos de vitória. A onda de optimismo levou mesmo o ainda ministro interino do Interior iraquiano, Falah al-Naqib, a declarar ao "Channel 4" britânico que está convencido de que as forças estrangeiras deixarão de ser necessárias dentro de 18 meses.

"Hoje, os iraquianos falaram ao Mundo e o Mundo ouviu a voz da liberdade vinda do centro do Médio Oriente", afirmou George W. Bush numa declaração televisiva, classificando de "êxito estrondoso" a participação do povo iraquiano no escrutínio.

"Em grande número e apesar de grandes riscos, os iraquianos demonstraram o seu apego à democracia. Ao participarem em eleições livres, rejeitaram firmemente a ideologia antidemocrática dos terroristas", acrescentou.

Falando em nome dos norte-americanos garantiu na sua intervenção, transmitida já depois do encerramento das urnas, que os Estados Unidos continuarão a apoiar o povo iraquiano e a treinar as suas forças de segurança.

Palavras idênticas teve o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, que também realçou a vitória do povo iraquiano e a derrota do terrorismo.

Números não são oficiais

Embora não haja ainda números oficiais (os que reproduzimos dizem respeito apenas a estimativas), cerca de oito milhões de iraquianos terão votado ontem nas primeiras eleições multipartidárias do país em mais de 50 anos, apesar dos vários ataques que provocaram pelo menos 45 mortos e uma centena de feridos.

Segundo a Comissão Eleitoral Independente (CEI) iraquiana, oito milhões de eleitores terão participado nas eleições, ou seja, cerca de 60% dos 14 milhões de recenseados.

Apelando à máxima cautela no que diz respeito a números, o representante da ONU para as eleições reconheceu, no entanto, que a participação ultrapassou as expectativas.

A organização não-governamental que controla os cerca de 10.000 observadores nacionais que acompanharam o escrutínio destacou, por seu lado, que não foram praticamente detectadas fraudes e que, de uma forma geral, as eleições decorreram "de forma excelente".

Resultados vão demorar

A contagem dos votos já começou, mas os resultados definitivos só devem ser conhecidos dentro de duas semanas.

As primeiras eleições multipartidárias do Iraque desde meados do século passado ficaram também marcadas por vários ataques perpetrados ao longo da jornada eleitoral e que provocaram a morte a 45 pessoas, incluindo nove atacantes suicidas, e mais de 90 feridos, a maior parte civis. Dos vários ataques registados, 11 foram reivindicados pelo representante da al-Qaeda no Iraque, Abu Musab al-Zarqawi, em dois comunicados sucessivos divulgados num site islâmico radical.

Há uma semana, Abu Musab al-Zarqawi ameaçou lançar uma "guerra sangrenta" contra as eleições e pediu aos iraquianos para se juntarem à sua luta.

Ontem, o ministro do Interior iraquiano, Falah al-Nakib, afirmou à Imprensa que os actos violentos foram "mínimos" quando comparados com o que as autoridades esperavam.

Entretanto, as reacções a este escrutínio histórico são de regozijo, com o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, a enaltecer a coragem dos iraquianos que saíram à rua para votar. "Devemos encorajá-los a tomar as rédeas do seu destino", sublinhou Kofi Annan.

A França, que se manifestou contra a guerra da coligação no Iraque, também já reagiu, com o porta-voz do Governo, Jean-François Copé, a afirmar que a elevada participação dos iraquianos nas eleições é "uma boa notícia, caso se confirme" e um "sucesso para a comunidade internacional".

Pelo menos nove mortos em queda de avião da RAF

O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, admitiu ontem que várias pessoas morreram na queda de um avião Hércules da Royal Air Force (RAF) britânica no norte do Iraque, ao início da tarde. Segundo a BBC, pelo menos nove pessoas terão morrido, enquanto a Sky News adiantava que o número de vítimas poderá elevar-se a 15. "Os nossos pensamentos e orações vão para as famílias dos que perderam a vida hoje", disse Blair quando fez o seu discurso sobre as eleições no Iraque, sem, no entanto, precisar o número de vítimas ou dar qualquer explicação para a queda do aparelho, ocorrida a cerca de 40 quilómetros a norte da capital iraquiana. "O país e o mundo não os esquecerão", acrescentou o primeiro-ministro num discurso gravado, em que elogiou as tropas britânicas por fazerem "um trabalho excepcional em nome do seu país". "Posso confirmar que um C-130 se despenhou", confirmara antes um porta-voz do ministério da Defesa igualmente sem dar pormenores, nem quanto aos motivos da queda (está já a decorrer uma investigação) nem relativamente ao número de vítimas. O aparelho despenhou-se a noroeste de Bagdade quando se deslocava para a base aérea norte-americana de Balad, situada a cerca de 60 quilómetros da capital iraquiana. Helicópteros norte-americanos foram de imediato enviados para o local, mas fonte militar norte-americana disse haver destroços espalhados por uma vasta área. Não foi dada qualquer explicação para o facto de o avião se encontrar numa zona do Iraque sob controlo norte-americano. Com o aproximar das eleições, muitos soldados britânicos foram destacados para Bagdade, para garantir a segurança.

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