Luís Paixão Martins, o responsável pelo marketing do PS, foi ouvido pela TSF sobre a campanha eleitoral socialista e sobre os métodos seguidos. Foi uma das entrevistas mais importantes depois da vitória eleitoral de domingo passado - não porque Paixão Martins tenha apresentado grandes novidades sobre a metodologia usada ou sobre o papel dos "focus groups" na escolha das ideias fortes da campanha que deu a maioria a José Sócrates, mas porque dá razão aos que, como eu, diziam que o país estava cansado e queria regressar à normalidade. Ou seja, que as pessoas normais queriam uma vida normal. Uma vida normal é uma coisa simples - professores colocados a horas, ordem nas ruas, telenovela antes e depois do telejornal, futebol ao fim-de-semana, juros baixos, telemóveis baratos e férias no Algarve. Não são precisas nem muita sensibilidade política nem muita perspicácia de sociólogo para compreender esse desejo de mediocridade. Há um lado da democracia que se deixa fascinar por esse desejo de mediocridade simpática - é necessário compreendê-lo. Com isso se ganham eleições e se seguram governos. António Guterres teve essa sensibilidade no início do seu segundo mandato, quando mencionou telemóveis e férias no Algarve. Eram metáforas aceitáveis. Medíocres mas aceitáveis. As pessoas aceitam endividar-se razoavelmente desde que o perigo não seja escandaloso; preferem a mediocridade ao combate pela excelência; os eleitores não gostam de ser incomodados. Compreende-se. Luís Paixão Martins diz também que a alusão de Santana Lopes a uma suposta orientação sexual de Sócrates funcionou contra o candidato do PSD. Também se compreende - não apenas porque a alusão foi vergonhosa e indecente, mas porque "as pessoas normais" se estão nas tintas para o domínio privado dos outros desde que não pretendam impor-lhes padrões ou desde que esses modelos não prejudiquem o desempenho de funções públicas. Santana, que representa a figura do cafajeste infantil, foi perdoado nas suas extravagâncias privadas; eram um assunto pessoal. Mas quando se viu que esse comportamento também traduzia a sua incapacidade de se portar com decência como figura do Estado, então a reacção mudou.
Paixão Martins mostra ainda que questões como a justiça e a política fiscal são coisas menores quando comparadas com o desemprego, por exemplo. As pessoas suportam um certo grau de injustiça e de ilegalidade desde que isso garanta o amparo social e a protecção do emprego. Também se compreende. Podemos não concordar, evidentemente, mas compreende-se. Um emprego é um valor sóbrio e decente, mais do que o combate ao défice.
O momento mais glorioso chega quando o estudo de marketing "descobre" que os portugueses são pouco sensíveis às "grandes reformas" que possam colocar em risco um valor como a estabilidade. As pessoas normais gostam de uma vida normal, de um emprego, de um carro em prestações baixas e de sardinhas pelo São João. Um político, em campanha, que decida não prometer nada além da vidinha - tem a eleição garantida.
Defendi essa ideia várias vezes nesta coluna. Fui criticado por isso. Chegou a altura de defender as minhas posições e de reabastecer o meu ego. Obrigado, Luís Paixão Martins. De certo modo, obrigado José Sócrates. Eu explico as pessoas gostam de uma vida decente e de poucos incómodos. As reformas são um incómodo. Durante a campanha, foi proibido contar a verdade.
Muitas vezes, os nossos políticos e melhores intelectuais falam de um país que não existe senão na imaginação ou na longínqua Suécia. Já agora, têm sido os contribuintes suecos ou alemães, por exemplo, a pagar essa estabilidade lusitana. Aí está um problema com que o eng.º Sócrates terá de lidar. Ou isso ou telemóveis e férias no Algarve.
Francisco José Viegas escreve no JN, semanalmente, às quintas-feiras
A vitória
Sócrates apostou e venceu. O PS ganhou as eleições com uma maioria folgadíssima. A vitória, aliás, estava antecipadamente assegurada e nunca o esteve tanto como nestas eleições, em que se sentia que era preciso mudar. Uma necessidade de mudança que levou gente de vários quadrantes e de outros horizontes partidários a concentrar no PS o desejo de uma reviravolta, mesmo em nome de uma apregoada qualidade política, percepcionada como tendo atingido níveis de degradação inimagináveis. O que não estava dado como adquirido era a maioria absoluta. E aí realmente venceu Sócrates. Oxalá o PS e os seus actuais dirigentes, sobretudo o máximo responsável, que é Sócrates, saibam lidar com o enorme peso da responsabilidade que uma maioria tão expressiva como nunca antes o fora lhes depôs sobre os ombros. É grande a carga, apesar de parecer confortável, por se pensar poder tal maioria conduzir a uma navegação sem escolhos. Não é assim. O PS não pode instalar-se em nenhuma euforia ou embriaguez, como se fosse a maior taluda de sempre que lhe tivesse calhado em sorte, pondo-se a gastar a soma auferida numa distribuição à grande e à francesa pelas clientelas habituais. A arrogância do "posso fazer o que quiser, que não tenho quem me faça sombra" é outra tentação a evitar. Há uma dimensão ética e uma dimensão política que o PS tem que reganhar, não só em confronto com os partidos da coligação de Direita que estava no poder, mas em confronto com o próprio PS de um passado recente. Essas dimensões contribuíram, segundo penso, para dar expressão às subidas do PCP e sobretudo do BE, que também não pode esbanjar em radicalismo exacerbado o capital adquirido. A votação maciça no PS foi a vontade generalizada de mudar. A mudança começa na fidelidade aos princípios.
Artur Costa escreve no JN, semanalmente, às quintas-feiras
Ofuturo Governo socialista, se quiser ultrapassar a crise económica em que se debate o país, terá, como toda a gente sabe, de tomar medidas impopulares.
Para um governo maioritário, é fácil concretizar essas medidas, transformando-as em leis com toda a legitimidade democrática. Mas será, por certo, mais difícil conseguir que os cidadãos aceitem o facto de não haver alternativas sem sacrifícios e de o caminho traçado ser o único que nos pode conduzir à solução dos graves problemas que ensombram o nosso futuro. É esse, provavelmente, o grande desafio a vencer.
O êxito do futuro Governo dependerá, em grande parte, da sua capacidade de diálogo, da sua abertura a sectores que, próximos ou distantes da sua posição política, convergem na ideia de que o país está a derrapar e de que evitar o desastre é a grande prioridade do momento. Se, apesar da maioria parlamentar, não conseguir atrair parceiros para a realização das grandes tarefas que exigem o esforço colectivo da população, não afastará o perigo do combate à crise económica conduzir a uma crise social.
Porque já se adiaram muito as verdadeiras soluções e se cedeu demasiado à inconsciência e ao facilitismo, não é, agora, possível ao futuro Governo ceder mais. Torna-se fundamental, por isso, que saiba convencer. E que saiba conduzir os portugueses a uma atitude responsável e participativa.
Rui Camacho escreve no JN, semanalmente, às quintas-feiras
ao novo Governo
O grande desafio