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Centenário do nascimento de Sartre

As comemorações do centenário do nascimento (1905) de Jean-Paul Sartre decorrem em Lisboa. É pena que a academia do Porto não tenha dado à efeméride o relevo que merecia. Sartre visitou o Porto em 1975 por solidariedade com o 25 de Abril. Foi um intelectual "engagé", manifestando-se contra a guerra-fria, as guerras na Argélia e no Vietname, defendendo a Revolução Cubana, repudiando a invasão da Checoslováquia e participando na rua, ao lado de trabalhadores e estudantes, na "revolução"de Maio de 68. Nenhum filósofo influenciou tanto o seu próprio tempo e deixou tantas marcas para o futuro como Sartre. Há quem defenda que não há um Sartre, mas três o jovem marxista, o crítico do marxismo e o existencialista ateu. Num debate ocorrido no Club Maintenant, Sartre aceita a palavra existencialismo para designar a sua própria filosofia. Esclarece: "Se Deus não existe há pelo menos um ser no qual a existência precede a essência (…) e esse ser é o homem (…) O homem é apenas aquilo que ele faz de si mesmo. Tal é o princípio do existencialismo". Na sua obra "A náusea", explica que esta resulta da indefinição do homem perante as infinitas possibilidades que o inquietam. Para se libertar da "náusea" o homem tem de usar a liberdade de forma absoluta e incondicionada e fazer da sua vida o seu próprio projecto. Afirma em "O Ser e o Nada": "O homem deve inventar-se a partir do nada que ele é, ao invés de se determinar por algo que lhe é exterior". É na escolha que se manifesta a consciência e a liberdade é o fundamento dos valores que orientam as escolhas. Se Deus existisse, o homem não era livre, mas Deus não existe e o homem é absolutamente livre, escolhe a partir de si próprio. Nesta liberdade absoluta está a sua autenticidade. Por isso, esclarece Sartre: "Cada vez que o homem escolhe o seu compromisso torna-se-lhe impossível preferir outro". E conclui: "A nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, porque é um compromisso com a humanidade inteira".

O existencialismo de Sartre destruiu o dogmatismo, libertou o homem do "inferno dos outros" e, ao colocar a liberdade na condição humana ("o homem é como se projecta"), fez do existencialismo uma ética da responsabilidade num novo humanismo.

Sartre marcou o nosso tempo. Merece que não o esqueçamos.

* Mestre em Filosofia

JOÃO BAPTISTA MAGALHÃES

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