A venda de bacalhau vai ser sujeita a novas regras a partir do próximo dia 28 de Abril. Recebida favoravelmente quer pelos industriais que pelos exportadores, a nova lei estabelece o que é ou não bacalhau, respectivos teores de sal e de humidade e condições de armazenamento.
Até agora, dificilmente o consumidor distinguia o bacalhau salgado seco do salgado verde ou semi-seco. Ou até poderia estar a comprar água pelo preço do produto seco. E até espécies afins como a abrótea, escamudo, lingue ou bacalhau do Árctico podiam ser vendidas como se do verdadeiro se tratasse.
A partir do final de Abril, apenas três espécies podem ser vendidas como bacalhau o do Atlântico, o da Gronelândia e o do Pacífico.
Também a forma de comercialização será sujeita a novas regras. Apenas o bacalhau e as espécies afins secas (teor de sal superior a 16% e humidade inferior a 47%) podem ser vendidas sem pré-embalagem. As semi-secas (teor de sal a 16% e humidade entre 47% e 51%) ou verdes (humidade entre 51% e 58%) terão de ser pré-embaladas.
O armazenamento e a exposição para venda sofrem também alterações, obrigando à manutenção de temperaturas de 4oC ou 7oC conforme o tipo de produtos. A rotulagem e a classificação em função do peso têm igualmente regras precisas.
Pesca costeira assegura sobrevivência da pequena ilha de Husøy
Randi Karlsen pertence à terceira geração de uma família que, desde 1936, comercializa bacalhau. Foi o seu avó que fundou a fábrica que, ainda hoje, assegura a compra de todo o pescado na pequena ilha de Husøy, na Noruega. São cerca de 230 habitantes que vivem da pesca e que, até há pouco tempo, vendiam directamente para Portugal. Agora, os tempos são outros, diz Randi, encolhendo os ombros "Os portugueses já não o vêm cá escolher. Compram bacalhau russo congelado e produzem-no em Portugal. É mais barato. Vem dos arrastões".
Portugal, que actualmente consome 90 mil toneladas de bacalhau por ano, era o grande cliente deste tipo de produtores, baseados em frotas costeiras. Hoje, essa relação directa praticamente desapareceu e a venda é efectuada através dos grandes exportadores noruegueses. São eles que conseguem alimentar as encomendas das grandes superfícies, que dominam o mercado português.
Randi Karlsen não esconde que Husøy vive algumas dificuldades, quer pelas oscilações dos mercados quer porque algumas espécies, como é o caso do bacalhau, não abundam. "O ano de 2004 foi muito mau", diz Randi, lembrando, por outro lado, que neste momento o preço do salmão fresco está muito alto. Um facto que ninguém esperava.
Ao final da manhã, o pequeno cais junto à fábrica da Brodrene Karlsen - o nome do avô de Randi - recebe pouco a pouco os pequenos pesqueiros que regressam da faina. "Parece que o bacalhau foi atrás do capelim, que lhe serve de alimento e fugiu da nossa zona", diz Randi, explicando o facto de os barco descarregarem pouco peixe.
Mesmo assim, Randi sorri e, com um ar optimista, lança um "vamos sobreviver". Uma espécie de garantia de que a pequena comunidade de Husøy vai continuar viva. A ilha, com apenas um quilómetro quadrado, tem 33 crianças na escola e 16 no jardim de infância. Aliás, são essas crianças que, todos os dias depois da escola, cortam as línguas dos bacalhaus. É um costume com muitos anos, explicam os habitantes.
Mas a sobrevivência faz-se também de acção. Há que encontrar alternativas para manter a fábrica a funcionar para além dos quatro meses de pesca ao bacalhau e para os menos importantes períodos de pesca de outras espécies que se lhe seguem.
Aquacultura
A solução é a aquacultura de salmão, um tipo de produção em que a Noruega se especializou. É essa produção, iniciada em 2000, que assegura que as oscilações na pesca não impeçam o funcionamento da linha de produção da fábrica.
Porém, Randi Karlsen continua a defender as vantagens do bacalhau pescado pelos pequenos barcos que continuam a chegar a Husøy. "Os grandes bacalhaus, preferidos pelos portugueses, saem normalmente na pesca costeira e não dos arrastões", defende Randi enquanto mostra as instalações da fábrica. "É preciso pagar o investimento feito para modernizar a fábrica", diz a neta do fundador que, mais uma vez encolhe os ombros, ao lembrar que a fábrica de óleo de fígado trabalhava continuamente. "Agora, apenas trabalha poucas vezes por mês".
Bacalhau já é criado em viveiro
"Tudo começou pelo salmão", lança Atle Mortensen, o director de investigação do Instituto Norueguês de Investigação das Pescas e Aquacultura responsável pelo projecto de desenvolvimento da aquacultura de bacalhau. Os números confirmam a firmação hoje, a Noruega produz 465 mil toneladas de salmão em viveiro, qualquer coisa como uma média de 113 quilogramas por habitante. "A experiência com o salmão é fundamental para a aquacultura do bacalhau", explica Mortensen, desfiando aquiloque diz serem as vantagens do seu país para desenvolver este tipo de produto e que vão desde as condições naturais até à tecnologia. Com a redução das quotas de pesca de bacalhau é dado mais um impulso para a sua criação em viveiro, um objectivo cada vez mais próximo. "Neste momento, já produzimos cinco a 10 mil toneladas de bacalhau de viveiro por ano", diz o investigador que admite existirem ainda "muito problemas" nessa produção. "A qualidade ainda é baixa, mas acreditamos no sucesso".
Aposta na aquacultura