Os aeroportos portugueses estão a receber os passageiros oriundos de Angola - onde aumentam os casos de febre hemorrágica - com um folheto informativo sobre o perigo do vírus de Marburg. Mesmo depois da embaixada de Portugal naquele país africano já dar como certas 122 mortes e 132 casos devido a este vírus altamente contagioso, a Direcção-Geral de Sáude (DGS) não destacou qualquer equipa para receber estes viajantes. Até ao fecho desta edição, e após inúmeras tentativas de contacto, a DGS não se pronunciou sobre esta matéria.
O vírus, explica o folheto, é mortal, propaga-se através de contacto directo e tem um período de incubação de três a nove dias, podendo chegar aos 21. O mesmo cartaz revela a sintomatologia e aconselha a que o passageiro, caso venha a perceber algum dos sintomas descritos, contacte a Linha de Saúde Pública (808 211 311). Após a sua leitura, o viajante, sem qualquer diagnóstico sobre a sua condição física, pode sair descontraidamente do aeroporto. "Repare, quem define as medidas de segurança nesta matéria é a DGS. Nós limitaámo-nos a seguir as suas instruções", justificou fonte do gabinete de comunicação do aeroporto da Portela, em Lisboa, ao JN.
Entretanto, de anteontem para ontem registaram-se mais dez mortes, em Angola, perfazendo um total, recorde-se, de 122, apesar das autoridades angolanas terem vindo a público garantir que a epidemia estaria controlada dentro de poucos dias (ver edição de ontem).
Os números alertaram a Organização Mundial de Saúde que já enviou para aquele território "30 especialistas naquele vírus para ajudarem o Ministério da Saúde angolano", informou Jorge Monteiro, secretário da Embaixada de Portugal, acrescentando, ainda, que a Embaixada "remeteu para os hospitais do Uíge [província onde se registou a origem de todos os casos, até agora] algum material para suprir as suas muitas carências. O equipamento, desde luvas a botas e máscaras, terá que ser queimado após utilização, já que o Marburg é altamente contagioso", relembrou.
Até ao momento, declarou Jorge Monteiro, não há conhecimento de nenhum português infectado. "Deu entrada, num hospital daqui, um senhor português, de 68 anos, com alguns sintomas parecidos, mas percebeu-se que não seria febre hemorrágica, até porque já apresenta algumas melhorias".
Apesar da origem de todos os casos estar na província do Uíge, já há, no entanto, situações detectadas em outras localidades, referentes a pessoas provenientes do Uíge. É o caso de Luanda, onde, segundo a Embaixada, se detectaram cinco casos de infecção, tendo já falecido três pessoas. O mesmo aconteceu com um indivíduo, num hospital de Cabinda.
Aquando do fecho desta edição, as autoridades angolanas estavam reunidas para fazerem um balanço da situação . "Estamos à espera de mais informação, a qualquer momento", alertou Jorge Monteiro.
Incógnita sobre morte de português
No sábado passado, faleceu, no Hospital da CUF, em Lisboa, um cidadão português recém-chegado de uma viagem a Angola. Os sintomas alertaram para a possibilidade da febre hemorrágica, mas o departamento de comunicação daquela unidade hospitalar desmentiu, em declarações ao JN, qualquer certeza.
"Foram feitas colheitas de sangue, que ainda estão a ser analisadas. Ou seja, não sabemos se realmente se tratou de um caso de febre hemorrágica ou não. Qualquer conclusão é, neste momento, muito prematura", explicou a mesma fonte daquele gabinete. "Só dentro de dois ou três dias, quando chegarem os resultados das análises, é que se saberá se este senhor morreu devido à febre hemorrágica ou não", informou a mesma fonte. Por sua vez, um funcionário que trabalha, em Portugal, para aquele cidadão, avançou ao JN a hipótese de ter sido malária.
Além desta situação, não há conhecimento de suspeitas sobre este vírus num qualquer outro cidadão português, aqui ou em Angola.