Os médicos prescrevem medicamentos a mais para o tratamento e os doentes suspendem, por iniciativa própria, a terapêutica prescrita. Duas situações que, segundo um estudo piloto, ontem divulgado em Coimbra, podem originar um desperdício na utilização de cerca de metade dos medicamentos prescritos.
A investigação - realizada em parceria entre o Centro de Estudos Farmacoepidemiologia da Associação Nacional de Farmácias e o Núcleo de Farmacovigilância do Centro - decorreu na região Centro (173 utentes) em Outubro de 2002, mas os responsáveis acreditam que a nível nacional os números serão semelhantes. Embora uma nota da Ordem dos Farmacêuticos revele que poderemos estar perante um prejuízo de 1,5 mil milhões de euros para o Estado, este número poderá não ser exacto.
Como alertou o presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, neste estudo apenas foi tida em contra a chamada "primeira prescrição", o que deixará de fora os doentes crónicos que tomam medicação regularmente e que são uma fatia grande da factura dos medicamentos.
Batel Gomes, coordenador do estudo, falou apenas das conclusões objectivas da sua investigação, frisando que, no que respeita a prescrição, registou-se um desperdício de 30,1%. Um valor que, como referiu José Manuel Silva, reforça os que defendem o "redimensionamento das embalagens". Aquele clínico defende mesmo a "uni-dose", que possibilitaria a prescrição exacta do número de comprimidos, por exemplo, necessários para o tratamento, sem desperdício.
José Manuel Silva lamentou, ainda, que muitas vezes os médicos não tenham conhecimento exacto do tipo de embalagens, e até dosagens, disponíveis nas farmácias. Na página (na Internet) do INFARMED, acusa, estão todos os medicamentos aprovados e não os que são comercializados.
Batel Gomes frisou que a estes 30 % de desperdício, se juntam os 45,7 % de medicamentos desperdiçados durante a utilização (o que faz uma média global de 49,7 %). Isto é, casos em que o doente suspendeu o tratamento. Em algumas situações porque dizia não sentir melhoras, o que revela, acrescentaria depois a farmacêutica Paula Martins, alguma "banalização" por parte do doente. Algo que deve ser ainda estudado, defendeu, tal como a realização de um estudo semelhante ao ontem apresentado, mas de âmbito nacional e com mais variantes.
Número
365
toneladas De medicamentos foram recolhidas, em 2003, pelas farmácias portuguesas. Este estudo piloto é o primeiro que tenta analisar o porquê de tantos medicamentos não chegarem a ser utilizados.
Ordem faz regras para antibióticos
Embora não fosse o objecto do estudo, o facto dos antibióticos surgirem à cabeça na lista dos fármacos prescritos (51,9 % de todos os medicamentos envolvidos naquela investigação) levou o presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, a admitir que a Ordem poderá vir, a médio prazo, a definir regras ("guide lines") para a prescrição daqueles medicamentos. De modo a que depois se possa verificar, através de auditora clínica, se se estão a prescrever antibióticos a mais ou não.