O primeiro-ministro e secretário-geral do PS, José Sócrates, declarou ontem ao JN apoiar uma eventual candidatura de Mário Soares à Presidência da República. "Tenho a certeza que se ele estiver disponível terá todo o apoio no PS e no país", disse o líder socialista, acrescentando que "a sua experiência e o seu prestígio podem ajudar muito a unir Portugal". É primeira vez que Sócrates quebra o silêncio para falar das presidenciais e logo para elogiar o antigo chefe de Estado _ que ocupou o cargo entre 1986 e 1996 _ dizendo que se este quiser recandidatar-se, "será obviamente um bom candidato e presidente da República".
Estas declarações vêm clarificar a questão presidencial no PS que nos últimos dias, em especial ontem, se desenrolou subitamente, com as notícias (no Expresso e no Diário de Notícias) de que Soares se preparava para avançar e com as declarações de Manuel Alegre ao Público de que está disponível.
Sócrates arriscava perder o controlo da situação se não desse um sinal ao partido. Vários militantes contactados pelo JN durante a tarde de ontem defenderam que o partido deveria tomar uma posição clara ainda ates das eleições autárquicas.
Aliás, as declarações de Manuel Alegre e Mário Soares foram vistas como uma pressão positiva sobre o líder do PS, ou seja, "demasiado convergentes e directas para serem ignoradas pela direcção socialista", nas palavras de um militante. Soares, com 81 anos, disse ontem, que apoiaria o candidato que o PS apoiasse e acrescentou não poder "substituir-se aos partidos que, apesar de legalmente não terem candidatos, acabam por decidir os nomes". Uma clara pressão.
Clarificação desejada
Em declarações ao JN, Alberto Costa, membro da Comissão Nacional do PS e ministro da Justiça, considerou que "seria positivo que o partido tomasse uma posição antes das autárquicas". "Valorizaria a nossa posição política", disse, sustentando que "deixar para depois das eleições só prejudicaria".
Também Vítor Ramalho defendeu, ao JN, ser "indispensável" que uma clarificação quanto antes. O deputado disse desejar que Soares "responda afirmativamente ao repto do partido".
Igualmente Medeiros Ferreira vem defendendo publicamente a candidatura do seu amigo Mário Soares, dizendo que todos os seus apoiantes têm sublinhado que "Soares nunca recusou qualquer repto" e fazendo a sua parte na "pressão" à direcção socialista.
Assim, Sócrates, ao dizer de Soares o que não disse de Alegre, quando este se disponibilizou a primeira vez, em Maio, ou mesmo de Freitas do Amaral, quando este deu a entender que aceitaria o desafio, é suficientemente claro, pondo agora nas mãos do fundador do PS a decisão de avançar ou não. Sócrates sabe também que declarar o apoio a Mário Soares nesta altura - antes de férias e enquanto as autárquicas ainda não entraram na campanha - é um trunfo forte contra a provável candidatura de Cavaco Silva, apoiada pela Direita.
À Esquerda, Soares é o único candidato que recolhe o apoio maioritário, segundo defenderam vários socialistas contactados pelo JN. Alguns dizem mesmo que tem todas as hipóteses de recolher uma expressiva votação na primeira volta das eleições presidenciais. Para outros, a hipótese de Soares regressar a Belém é melhor para a governação socialista uma vez que faria um mandato "sem criar duas lógicas competitivas entre Belém e São Bento".
Os acontecimentos que levaram Jorge Sampaio a dissolver o Parlamento, em Dezembro, ainda estão frescos na memória. Daí que entre os socialistas tenha aumentado a apreensão de que Cavaco venha a mandar em Belém. Acentuam-se as leituras parlamentaristas do regime semi-presidencial português que privilegiam o desempenho do presidente sem excessos de protagonismo.
Ainda que Soares não encaixe neste perfil, é da mesma família do Governo. Aliás, tem sido o primeiro a elogiar o primeiro-ministro, dizendo repetidamente admirar-lhe a coragem com que está a enfrentar as dificuldades.