Há certamente muitas formas de dizer adeus, mesmo que o adeus aconteça contra a vontade de quem se despede. O Ballet Gulbenkian, extinto subitamente no passado dia 5 por decisão da Administração da Fundação, decidiu despedir-se do público olhos nos olhos e corpo a corpo. O último espectáculo da já inexistente companhia aconteceu ontem no Teatro Camões, em Lisboa, e foi tudo menos uma fuga pela porta do cavalo. Os bailarinos desceram do palco, dançaram com o público, que não se fez rogado, e levaram parte dele para esse lugar onde se abre e fecha a cortina que diz que um espectáculo vai começar ou já acabou.
Foi um adeus de lotação completamente esgotada. E tão esgotada, que, terminado o espectáculo dentro de portas, a já não companhia saiu com o público para o Parque das Nações. Ali, quem não tinha conseguido um lugar (gratuito, aliás), pôde ver uma retoma da segunda peça do programa, um improviso sobre uma interpertação ao vivo do grupo Danças Ocultas, que terminaria já sem música e quase sem movimentos, impondo-se como uma espécie de comentário irónico uma respiração apressada que se pressentia estar prestes a expirar.
Ali morria, formalmente, o Ballet Gulbenkian, fundado há 40 anos, e que durante os últimos anos do regime deposto a 25 de Abril foi uma das poucas manifestações da arte do movimento em Portugal. Eram 27 os bailarinos que diziam , prestes a ausentar-se de pertencer a uma companhia, "estamos aqui".
Antes de o espectáculo começar, o que, dadas as circunstâncias do espectáculo foi compreensível q. b., um "speaker" fez um breve historial da companhia-que-já-não era, mas ainda ia dançar uma última vez. Por ordem alfabética, disse o nome de todas as terras portuguesas onde, ao longo destes 40 anos, o Ballet Gulbenkian actuou. Mais sucintamente, seguiu-se uma breve referência a alguns palcos estrangeiros. "Estes 27 bailarinos são apenas alguns dos que ao longo destes anos..." etc. etc..
"Cantata", do italiano Mauro Bigonzetti, fez a primeira parte do espectáculo meia hora de lirismo sem papas na língua. Um quarto de hora de intervalo e depois as tais "danças ocultas", terminadas com uma respiração a que acaba por faltar o ar.
"A companhia acabou de uma maneira tão inesperada que todos sentimos a necessidade de uma última reunião em palco", dissera, alguns dias antes, Cláudia Nóvoa , um dos 27 bailarinos do extinto Ballet Gulbenkian.
Talvez a maior prova desse fim inesperado tenha sido a adesão do público, que começou a afluir ao Teatro Camões bastante antes de o espectáculo começar. Algumas dessas pessaos ficaram ali mesmo depois de perceberm que teriam de ficar cá fora.