Foram mais de 20 anos a fazer jornalismo em português nos Estados Unidos, metade dos quais como correspondente da SIC e também para a rádio TSF. Depois desse período fértil da sua carreira, Luís Costa Ribas regressa a Portugal para ser repórter sénior, figura comum nos EUA, mas que ainda tem muito por desbravar em solo luso. Pelo meio, diz esperar assumir a coordenação do "Jornal da Noite". Nesta conversa, critica, por exemplo, a cobertura que se faz dos incêndios.
[Jornal de Notícias] É possível comparar o jornalismo televisivo praticado nos Estados Unidos com o português?
[Luís Costa Ribas] É muito difícil praticar esse exercício já que são duas realidades diferentes. O jornalismo americano foi bom até ao 11 de Setembro de 2001. Mas depois cedeu em várias questões, quer em relação a essa tragédia quer, depois, em relação à guerra do Iraque. Veja-se o caso do "New York Times" e do "Washington Post" que publicamente pediram desculpas pela cobertura que fizeram da guerra do Iraque. Mas é difícil fazer comparações, sobretudo se nos lembrarmos que nos Estados Unidos existem mil estações de televisão, 10 mil de rádio e cerca de 100 mil publicações.
E quanto ao caso português?
Em Portugal também já se fez melhor jornalismo. E não me refiro só ao jornalismo televisivo, falo do geral. Lêem-se, ouvem-se e vêem-se peças jornalísticas com pouca fundamentação, recorrendo a uma só fonte, quando sabemos que em todos os assuntos há sempre um reverso da medalha. Veja-se o caso das reportagens dos incêndios. Dói-me o coração, quando vejo os repórteres de televisão a correr perigo de vida quando estão no terreno a acompanhar os incêndios de Verão. Ninguém lhes paga para pôr a vida em risco, mas sim para fazer reportagem. De resto, só se mostra as velhinhas a chorar, os bens que perderam e não se faz nenhuma contextualização dos incêndios que estão a tratar. Deveria estudar-se a forma como o jornalismo português faz a cobertura dos fogos.
Pode a pressão do mercado alimentar esse tipo de jornalismo?
Às vezes deveríamos refrear a nossa arrogância intelectual e entender que, quando o leitor ou espectador não percebe o que estamos a fazer, não é ele que é burro. Nós é que não estamos a saber cumprir a nossa função primordial comunicar. Um jornal pode ter o melhor jornalista de economia, mas se a sua mensagem só for entendida pelo ministro da Economia, então esse jornalista serve de pouco para convencer o leitor a comprar o jornal. E com essa atitude, o jornalismo dito sério entrega o "bolo" aos jornais mais fracos. Isso tem acontecido em Portugal, apenas porque não se estão a fazer peças interessantes sobre assuntos sérios. E aí reside outra das diferenças entre os Estados Unidos e Portugal: lá, o governo não salva jornais. Estão submetidos às leis do mercado.
Como está a sua situação na SIC?
Está apalavrado um novo contrato, agora que deixei de ser correspondente. Irei assumir as funções de repórter sénior, o que implica funções de chefia e de reportagem. Há também a forte possibilidade de vir a coordenar o "Jornal da Noite", tarefa para a qual me estou a preparar já que ainda tenho de conhecer bem o resto da redacção e a realidade nacional.
"Estou a preparar tudo para coordenar o 'Jornal da Noite'", diz o repórter da estação SIC
Testemunho
11 de Setembro 2001
"Foi um dia trágico, marcante e dramático. Ainda por cima a minha mulher trabalhava na altura a meio quilómetro do Pentágono, onde caiu um dos aviões. Às 8.45 horas, altura em que tudo aconteceu, estava ainda de pijama, a tomar o pequeno-almoço. Fazia parte da minha rotina diária ligar a televisão na CNN, quando o telefone toca com as redacções da SIC e da TSF a dizerem-me que caiu um avião em Nova Iorque. E de facto a CNN mostrava uma das Torres Gémeas a arder. Estava já em directo com o Paulo Camacho, da SIC, quando vimos o segundo avião a bater na torre. A partir daí não houve dúvidas de qualquer espécie isto é terrorismo. Não foi um dia fácil. Estava agarrado a três telefones e em directo para a SIC, SIC Notícias e TSF. Depois melhorou um bocado, quando a emissão da SIC e da SIC Notícias passou a simultâneo. Sempre a tentar, evidentemente, obter uma resposta quanto à questão familiar".
"Gasto pelo menos mil euros por reportagem" "Hoje em dia é muito mais difícil ser correspondente. Antigamente tínhamos que fazer o noticiário do país. Mas agora há muitas outras cadeias de televisão a dar notícias do país onde estamos como correspondente. Sem contar com as agências. O noticiário chega pela CNN, SkyNews, Reuters ou pela CBS. Só a televisão da Reuters distribui para mais de 500 televisões em todo o mundo. Em qualquer lado há estas agências, todas com serviço de imagem, que produzem diariamente toneladas de vídeos e "directos", muito mais barato do aquilo que nós podemos fazer. Não consigo fazer uma reportagem para a SIC nos Estados Unidos sem gastar pelo menos 200 contos. E estamos a falar de uma coisa de nada. Quando cheguei aos Estados Unidos a realidade era outra. Não havia nada e era preciso fazer a notícia de raíz, a não ser que se quisesse ficar pelo "telex" básico".