Já disse que não quer limitar a campanha aos mesmos temas, mas o Parque Mayer e o túnel são incontornáveis...
Felizmente, já estão todos em seu sítio, com a sua pequeníssima importância. Arranquei com o tema de arrumar a casa, que significaria a diminuição da burocracia, a melhoria dos circuitos para acelerar os procedimentos da câmara. Tem uma importância enorme para restabelecer a confiança dos cidadãos e para a economia da cidade. O presidente tem de ser um líder para dentro da Câmara, para a Junta Metropolitana e um parceiro incontornável das decisões do Governo, que têm um impacto imediato na cidade, como o aeroporto ou o TGV. O segundo ponto é o da revitalização, onde o Parque Mayer e o túnel não entram.
Mas foram os assuntos que dominaram o mandato...
E iam dominando a campanha! Vou ser imodesta ainda bem que cheguei! É irrelevante. O túnel pretende facilitar a entrada na cidade, quando do que precisamos é de actuar nas causas dessa entrada.
Não concorda com a obra?
O túnel não era prioritário e esgotou todo o mandato de Santana Lopes. O Parque Mayer também está longe de ser algo verdadeiramente necessário e a solução é inexequível. O projecto assenta em pressupostos que não se verificam. Não precisamos de mais espaços culturais e não temos conteúdos para espaços dessa dimensão. Os custos de funcionamento serão de tal ordem que todo o orçamento cultural da Câmara fica "comido" aí. É uma má ideia para Lisboa.
Qual será a sua prioridade?
É a questão da economia da cidade, que se liga ao conceito de revitalização. Não há nenhuma cidade que possa progredir sem uma economia forte. No caso do rio, por exemplo, não se pode esquecer o Porto de Lisboa que, directa ou indirectamente, cria 37 mil empregos. Não vejo Lisboa com parque lúdico de entretenimento. Vejo os lisboetas a necessitar de trabalhar. É fundamental privilegiar a economia da cidade, sendo certo que a zona ribeirinha tem de ser beneficiada. Mas o rio é um factor da economia da cidade, não é apenas para andar a passear. Aliás, Lisboa tem gente de mais a passear, muitos desempregados, muita gente idosa. Tem 50,1% de pessoas sem rendimento de trabalho ou de actividades económicas, que vivem de subsídios ou à custa das famílias. Infelizmente, temos demasiadas pessoas desocupadas. É preciso inverter isto e tornar Lisboa uma cidade de classe média activa.
Qual a solução para fazer isso?
Fazendo tudo ao contrário do que se fez até agora. A CML tem um instrumento privilegiado para a questão da habitação de arrendamento. Há muitos anos que se diz que Lisboa está desertificada, deixámos que tivesse clivagens muito violentas, quer geracionais, quer socioeconómicas. Para trazer as pessoas, é preciso dar-lhes habitação de arrendamento, com rendas compatíveis, não subsidiadas, nem sociais, que sou contra. Há zonas em Lisboa que são mais caras que a 5.ª Avenida, em Nova Iorque! É um mercado que tem de ser corrigido e é exactamente para isso que a Câmara teria de entrar com parte do seu património.
O que sugere?
A Câmara tem um património vastíssimo, que está muito mal rentabilizado. Deveria constituir fundos imobiliários para a gestão do património de rendimento e pegar numa parte do património, numa ou duas zonas da cidade, e afectá-lo à criação de habitação de arrendamento. É um trabalho que faria em parceria com privados, que teriam margens de lucro menores do que as que estão habituados, e que iria disciplinar o mercado.
Há património para fazer isso?
Sim. Uma parte está ocupado por idosos, que vivem isolados, em regra em andares altos, com pouca mobilidade. Bastaria pegar num imóvel e fazer uma residência assistida, para onde seriam transferidos, com serviços comuns e vantagens óbvias para eles.
Quem é que as asseguraria?
Poderia ser a Misericórdia, que está em vias de fazer duas. É um conceito hoje muito usado nas cidades que envelheceram. É uma perspectiva muito diferente da que tem sido usada não é a Câmara como empresa de construção e imobiliário, mas a fazer uma política destinada à reabilitação e à criação de habitação de arrendamento, com rendas para a classe média. Estas pessoas instalam-se e criam imediatamente necessidades. É a resposta a essas necessidades que cria a dinâmica da revitalização. Uma classe média activa era ouvida e exigente.
Sabe quantos fogos estão nessas condições?
Muitos. Volto aos números dos 1457 milhões de euros do plano de actividade, entre 2002 e 2004, só 115,5 foram para a reabilitação urbana. Mas só conseguiram gastar 54,6 milhões de euros...
Houve ineficácia?
Só 4,7% da dotação do plano de actividades foi aplicado em obras de reabilitação urbana. Ao contrário das despesas correntes e dos gastos com pessoal, que aumentaram, as despesas de investimento diminuíram muito na CML. A máquina não teve capacidade de cumprir o plano de actividades.
Pelos seus números, estes quatro anos foram desastrosos...
Foram muito maus. Partiu-se do princípio de que se podia governar duplicando as estruturas. Se a máquina não for operacional, não se vai conseguir fazer nada.
Em termos sociais, quais são as suas preocupações?
Há muitas cidades ocultas. Temos de denunciar isso. Há um problema muito grande com os bairros de realojamento, deslocalizaram e fecharam os problemas. Além disso, a questão da imigração, dos refugiados e sem-abrigo. Há ainda áreas muito degradadas e uma tendência de substituir os bairros por urbanizações e condomínios fechados, onde a rede social de proximidade não existe.
Tinha indicação de que seria reconduzida na SCML?
Tinha. Mas a recondução por si só não é suficiente. Preciso muito de condições de eficácia no trabalho.
E não as tinha? Porquê?
Não, não tinha. Por uma razão muito natural, que compreendo perfeitamente muda o Governo, muda a orientação política. Os governos anteriores deram-me a liberdade de definir a minha orientação para a Misericórdia. E, neste caso, não tinha. Compete a cada Governo dizer qual a orientação política para a Misericórdia e saber quem são as pessoas que melhor a desenvolvem. E eu não seria, certamente. Este Governo tem um entendimento diferente daquele que eu propus antes.
O que é que iria mudar?
Queriam a dependência da Misericórdia do Governo, de novo a alteração do protocolo entre a Misericórdia e o Ministério da Segurança Social, que foi um ponto muito importante para redefinir a missão e, eventualmente, alguma dúvida sobre a repartição das receitas dos jogos... um conjunto de questões que alterava completamente o que tinha sido o formato desta gestão.
Há quanto tempo está a Misericórdia sem provedor?
Há mês e meio, mas há duas pessoas da minha equipa que se mantiveram em gestão e que serão substituídas hoje, dia 22, quando falarei com o futuro provedor para me pôr à disposição e passar a pasta.
Este convite acabou por surgir numa boa altura?
A minha vida tem sido sempre assim. É muito bom estar atento ao fechar dos ciclos, sem ter medo.
Aceitaria ser candidata se Paulo Portas ainda fosse o líder do partido?
Talvez. Se tivesse condições de eficácia. Não houve nada para que Paulo Portas me chamasse que não tivesse ido. Teríamos de conversar.
Como viu a integração do ex-vereador Pedro Feist, que saiu do CDS em conflito com Portas, na lista de Carmona? Pode dividir o eleitorado?
Certamente que não. Não tem efeito nenhum.
Gostaria de o ter a seu lado?
Não. Uma das coisas fundamentais para uma equipa é a confiança e a lealdade.
Pedro Feist não foi leal?
Não estou a dizer isso. Mas agora sente-se bem no PSD, é um direito que tem.
Intitula-se a candidata das pequenas coisas. Qual é a sua bandeira eleitoral?
A revitalização. A cidade não pode estar como está, uma manta de retalhos. É preciso uma gestão que torne tudo o que está dentro de Lisboa interligado. Isso significa olhar para a cidade numa perspectiva que não é de construção civil, nem de obra pública.