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"Em 2006 vamos inovar"

Ana Gaspar texto José António Domingues Foto

Anova temporada televisiva arranca hoje na RTP1 com duas estreias. Uma nova versão de "A escrava Isaura" e o concurso de cultura geral "O cofre", apresentado por um dos trunfos do canal Jorge Gabriel. O director de Programas Nuno Santos falou das novidades que tem na calha com especial destaque para o humor que vai ser uma das apostas da RTP1, a estação que quer "marcar a agenda televisiva".

[Jornal de Noticias ]Quais são as grandes apostas da RTP1 para a temporada televisiva que agora se inicia?

[Nuno Santos] Na nova temporada, os portugueses vão encontrar na RTP uma grande série de ficção histórica que retrata o amor eterno de Pedro e Inês, um novo concurso que é a nossa escolha para o horário das 21, com um apresentador de excepção, o Jorge Gabriel, e o programa de entretenimento "Música no ar". A informação terá também mais expressão. Isto será o mais visível, mas existirão muitas operações que farão da RTP, mais uma vez, a estação que "marca a agenda" televisiva.

É a grelha que gostava de ter?

É uma boa oferta, ainda mais diversificada e com o objectivo de chegar a todos os públicos.

Durante o Verão, os canais costumam repor programas. A RTP1 fê-lo em horário nobre. Foi uma maneira de valorizar novamente estes conteúdos?

Também. Ao mesmo tempo, foi uma medida de racionalização de custos. A RTP tem ainda naturais constrangimentos financeiros.

Como é que a RTP vai reagir aos "reality shows" que os privados estão a preparar?

A RTP vai agir e não reagir. O nosso caminho está legitimado pelos espectadores. Agora não deixaremos de os monitorizar para perceber exactamente o que valem e que tipo de espectadores os procuram.

A RTP1 vai ter algum? Confirma-se o interesse no formato "O aprendiz"?

Antes de mais é preciso desmistificar uma ideia para a generalidade dos espectadores "reality show" é sinónimo de "Big brother". O que posso assegurar é que nós não teremos nunca programas onde a dignidade humana é posta em causa. Não é o caso de "O aprendiz". É público que o formato nos interessa.

Por várias vezes mostrou vontade de incluir programas de humor na grelha. É agora que vai ter essa oportunidade?

Sim. Vamos estrear ainda este mês um novo programa onde o protagonista será Aldo Lima, um dos grandes talentos da nova geração. Tenho a convicção que será um programa muito marcante e devo dizer que, embora a produção seja complexa, é um formato de grande simplicidade. É o primeiro de uma linha que terá, em 2006, grandes surpresas.

Que tipo de humor se pode enquadrar num canal de serviço público?

O humor é um género televisivo onde os rótulos são arriscados. Ainda assim, entendo que a oferta da RTP deve distinguir-se da das televisões privadas sem que isso signifique ignorar os gostos do grande público. Queremos um humor mais interventivo, que suscite a gargalhada, mas também uma certa inquietação. Depois quero os clássicos fórmulas conhecidas que chegam a pessoas de todas as gerações. A tal simplicidade tão difícil de concretizar.

Ainda assim, não julga que uma grelha de serviço público possa ser mais apelativa, até para contrariar a ideia que tem de ser uma coisa cinzenta? E isso significa que tipo de produtos?

Aceito, se apelativo não significar cedências na qualidade, na abordagem e sobretudo nos princípios. Nós temos obrigações perante os espectadores e elas fundem-se com as nossas convicções sobre o papel social que a televisão não pode deixar de desempenhar. Já agora, prefiro falar de uma estética global da antena do que de programas em concreto. Em 2006, vamos inovar.

Por várias vezes, falou na necessidade de diferenciar os conteúdos de serviço público, dos emitidos pelos operadores privados. A escolha de uma telenovela brasileira - "A escrava Isaura" -, ainda que emitida num horário diferente, não contraria essa intenção?

Não e na sua pergunta está a resposta. Uma estação de televisão emite nas 24 horas do dia e deve, em cada momento, ir ao encontro dos espectadores disponíveis. Ponderando os públicos, a qualidade da novela e os custos tomámos a decisão certa.

E a parceria com a TV Record, não teme que possa ser comparada com a que a SIC tem com a Rede Globo?

O que sucede é que encontrámos um bom produtor de conteúdos, que está a fazer um investimento muito forte na área da ficção e com quem fizemos um acordo que admitimos renovar. No caso da SIC, é um eufemismo chamar-lhe "parceria". O que existe é uma relação de dependência.

Recentemente, a RTP exibiu um documentário sobre José Mourinho, cujo título remetia para uma campanha publicitária protagonizada pelo treinador e que era patrocinado pelo anunciante. Foi o patrocinador que escolheu o título?

Não, não foi. Muitas vezes, as questões são diferentes do que parecem. Por isso, rejeito o julgamento sumário de tantos guardiões da ética.

Já foi ouvido pela Alta Autoridade para a Comunicação Social sobre o assunto?

Com todo o respeito pelos órgãos de Comunicação Social, a Alta Autoridade conhecerá a posição da RTP de forma directa.

Tem-se falado sobre a possibilidade de o Governo vir a criar espaço para um novo canal de televisão generalista. Na sua opinião, existe espaço para um novo canal nestas circunstâncias?

Com os dados de que disponho diria que a resposta é não. Admito que existirão outros estudos e, se assim for, acho que o assunto necessitará de reflexão. Qualquer precipitação pode ser fatal.

Tem-se referido ao audiovisual como "uma questão de regime". Que quer dizer com isso? Acha que o audiovisual pode vir a ser encarado dessa maneira?

O audiovisual é uma área estratégica pela influência que tem junto dos cidadãos. Se lhes juntarmos a conexão com as novas tecnologias e com as novas plataformas de distribuição, estamos a falar de uma ferramenta poderosa que precisa de regras muito claras. Só assim ela pode contribuir de facto na formação para a cidadania. Estamos sempre prontos para criticar os políticos, mas nesta área tem existido solidez no caminho e convergência no essencial. Isso é bom.

Em que ponto está o projecto para os magazines com temas de intervenção social, que o iam trazer de novo para o ecrã?

O projecto foi alterado, mas algumas das suas componentes mantêm-se, como, por exemplo, o magazine da Língua Portuguesa. Com toda a franqueza, a questão de estar no ar nunca foi, para mim, uma prioridade. Vou voltar no momento certo e sei que as pessoas se recordam do meu trabalho. É raro o dia em que não sou identificado como o pivô do jornal da SIC.

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