Asua "última e mais moderna" obra no Porto. A Casa dos 24, na Sé, era assim definida pelo projectista Fernando Távora, que faleceu no passado sábado. O arquitecto desenhou o edifício-escultura à imagem da torre medieval, que acolheu a primeira sede dos Paços do Concelho, mas hoje é o espelho do abandono. Concluída há mais de três anos, as portas de bronze permanecem fechadas, face à incapacidade da Câmara do Porto em conceder-lhe uma utilização, ficando à mercê da deterioração e do vandalismo.
Os primeiros danos são já visíveis. Uma das portas apresenta marcas de vândalos riscada e com um dos óculos de vidro danificado. Na envolvente da Casa dos 24, reconhece-se um cheiro nauseabundo a urina e a lixo. O edifício parece esquecido entre a Sé do Porto e o bairro. Não tem direito a placa identificativa, apesar de merecer a atenção dos milhares de turistas que passam pelo terreiro e a eternizam em fotografias e em filme.
De anúncio em anúncio
A única pista é dada pelas palavras gravadas na fachada de granito "Antiga mui nobre sempre leal e invicta cidade do Porto". Reconstruída a partir das ruínas do "Paço do Rolação", fica a seis metros da catedral, tem 22 metros de altura (100 passos) e custou 858,31 mil euros à autarquia do Porto, comparticipados pelo Feder e pelo Fundo do Turismo.
Desde a conclusão, em 2002, têm-se sucedido os anúncios de abertura (ler cronologia). Embora o próprio autor tenha reconhecido a dificuldade em dar-lhe uma utilidade, repetiram-se as promessas de ocupação como centro de documentação das seis cidades portuguesas e galegas com núcleos históricos classificados como Património da Humanidade ou sala de exposições temporárias, ou ainda local de acolhimento de turistas. A verdade é que nenhuma se concretizou. Após a inauguração, a 24 de Outubro de 2003, esteve quase sempre fechada com alguns períodos de abertura intermitentes.
E o "memorial" da cidade Invicta ilustra esse isolamento. No interior, sobram os espaços vazios que se adivinham através dos vidros imundos. Sob o pavimento de madeira repleto de pó, encontram-se um andaime, algumas folhas de jornal e um mapa colorido do bairro da Sé. Também a estátua de representação do Porto, de autoria de Manuel Joaquim Alão, está perdida nas traseiras do edifício. Foi colocada para ser apreciada do interior. Com as portas fechadas, não é possível ver a escultura nem a vista dos telhados da Sé até aos Clérigos.
O espaço está vedado. Ainda assim, há lixo e mau cheiro nas traseiras da Casa dos 24.
Cronologia
07/05/1998
Fernando Távora mostra a "caixa milagrosa" a erguer na Sé, a pedido da Câmara portuense, evocando a primeira sede dos Paços do Concelho do Porto.
Maio de 1999
IPPAR chumba projecto por considerar que não se adequa à envolvente da Sé. A defesa por Álvaro Siza foi decisiva para a aprovação
16/11/2000
A construção da Casa dos 24 arranca em 2000. Quando a obra já estava no terreno, a Associação de Moradores do Bairro da Sé enviou 250 assinaturas à Câmara para travar a torre. A obra continuou.
23/02/2002
Nova polémica na recta
final da obra com um pedido de esclarecimentos da Unesco ao Governo português, após a denúncia de um turista francês. A torre
ficou concluída nesse ano.
24/10/2003
Após ter estado fechada por mais de um ano, é inaugurada em Outubro para acolher o centro de documentação das cidades lusas e galegas com centro histórico classificado pela Unesco.
Projecto nunca se realizou.
Verão de 2005
De 2003 até este ano, foram apontadas várias datas para a abertura como centro de documentação ou espaço de acolhimento ao turista.
O anúncio mais recente partiu do vereador Fernando
Albuquerque, garantindo a reabertura antes do Verão.