Pela primeira vez, os autarcas vão a votos em Outubro. A alteração legislativa que antecipou a data em três meses produz efeitos operacionais, já que favorece o planeamento da actividade do próximo ano a tempo e horas. Mas a importância do sufrágio do dia 9 (em jogo estão os mandatos para 308 concelhos e 4252 freguesias) reside no facto de se realizar no meio de um apertado ciclo político, com os partidos de olhos postos nas presidenciais de Janeiro.
As eleições autárquicas prestam-se, tradicionalmente, a que dos seus resultados se extraiam ilações nacionais. Basta recuar quatro anos para encontrar o episódio mais drástico, a demissão do primeiro-ministro António Guterres em plena noite eleitoral. É tudo menos provável que a história se repita.
O líder do maior partido da Oposição já garantiu que não abrirá uma crise política, mesmo que derrote o PS. Marques Mendes invoca a estabilidade como valor primordial. Prevendo que o voto exprima a contestação às medidas do Governo, sabe a maioria absoluta é escudo suficiente para José Sócrates se proteger.
Os restantes partidos - CDS PCP e BE - não hesitam em apelar aos eleitores que aproveitem a oportunidade para exprimir o seu protesto em relação ao Governo socialista. Prontos a fazer uma leitura nacional dos resultados, na noite eleitoral.
A campanha começa hoje oficialmente, mas está na rua desde meados do Verão. E os dados estão lançados. A sólida vantagem sobre o PS (46 câmaras, entre as quais de Lisboa e Porto) deverá colocar o PSD ao abrigo de surpresas. No entanto, traçou em congresso um objectivo pouco ambicioso manter a condição de partido com maior número de municípios. Já o PS se afirma apostado em obter mais votos. Fórmulas "mágicas" que podem permitir a ambos cantar vitória, uma vez que em 2001 os socialistas obtiveram 34,1% dos votos, contra 28,2 do PSD.
As eleições deste ano estão indelevelmente marcadas pelo mediatismo das candidaturas independentes protagonizadas por arguidos em processos judiciais, pedras no sapato dos partidos a que pertenciam. Isaltino Morais (Oeiras), Fátima Felgueiras (Felgueiras), Valentim Loureiro (Gondomar), Avelino Ferreira Torres (Amarante) têm em comum um capital político próprio, que não pode deixar de suscitar reflexão no interior dos partidos (ler texto pág. 5).
Alianças, só à Direita
Estes e outros casos entram nas contas finais, admitindo-se que baralhem prognósticos, sobretudo se crescer a influência do "partido dos independentes". É provável, até, que penalizem mais o líder do PSD, se perder Oeiras e Gondomar, onde assumiu politicamente opções distintas.
Marques Mendes deu luz verde à estratégia de alianças com o CDS, bem mais vasta do que há quatro anos (ler texto pág. 6). Já o PS não alinha em coligações. Em 2001, fazia-se acompanhar do PCP e do PEV, em Lisboa, e do CDS em oito candidaturas na Madeira. Desta vez, concorre sozinho em quase todos os municípios. Só falta à chamada em Penedono, para concentrar votos numa lista independente.
O PCP de Jerónimo de Sousa apresenta-se fragilizado por dissidências internas, susceptíveis de comprometer as suas ambições. Manter as 28 câmaras será uma vitória para a CDU, obrigada a renovar quadros em Beja e Alcácer do Sal e a enfrentar a rebeldia do presidente da Câmara do Redondo.
Potenciar o crescimento eleitoral das últimas legislativas é o objectivo do Bloco de Esquerda. O facto de passar de 70 para 109 candidaturas traduz a medida da aposta. Deverá conservar a sua única Câmara (Salvaterra de Magos). E pode registar progressos eleitorais em concelhos como o Entroncamento ou no distrito de Setúbal.
Cumprindo a tradição, voltam a ocorrer "mudanças de camisola". Quatro presidentes em funções mudam de campo - João Gouveia (Soure), do PSD para o PS; António Caetano (Celorico da Beira), do MPT para o PSD; Albuquerque Álvaro (Bombarral), do PSD para o CDS, e Domingos Torrão (Penamacor), que dissolveu o seu movimento de independentes, e se recandida pelo PS.
Todos acreditam - e os partidos que os acolheram também - que a sua força política é superior à das organizações partidárias. Nessa convicção, não se distinguem dos novos "independentes" que enchem páginas de jornais. A resposta será dada nas urnas.
Pequenos partidos sem perspectivas de sucesso
O MPT, único partido sem representação parlamentar que detém a maioria numa Câmara, vai desaparecer do mapa autárquico, porque António Caetano, líder do município de Celorico da Beira, mudou-se de armas e bagagens para o PSD.
Sem implantação local, é este o destino dos pequenos partidos, em eleições autárquicas podem servir de instrumento a ex-militantes dos "grandes" para se candidatarem, mas a vitória é frequentemente de Pirro, porque efémera.
Em Outubro, o MPT só concorre autonomamente a quatro municípios, sem quaisquer perspectivas de sucesso. O mesmo acontece com o MRPP, embora entre nos boletins de votos de 19 municípios, o Partido Humanista (12), o PNR (5), o PND (3) e o PSN (1).
O PPM, que constituiu listas próprias em 12 concelhos, alinha ainda em diversas coligações. A saber 13 com o PSD e o CDS, e três incluindo também o MPT.