eclipse anular Santuário de S. Bartolomeu, em Argozelo, é o melhor palco de observação
A expectativa cresce em Argozelo, Vimioso, no nordeste transmontano. Centenas de pessoas iniciam a contagem decrescente para observarem um fenómeno natural raro. O eclipse anular, que ocorre esta manhã, levou cientistas, investigadores e populares, portugueses e estrangeiros, a rumarem ao santuário de S. Bartolomeu. No terreiro que cerca a igreja, no cimo de uma serra, a vista, ao pôr-do-Sol, alcança quilómetros.
Hoje, às 9,54 horas, o espaço é o local privilegiado para observar o que não se vê desde 1912 em Portugal continental. A Lua vai sobrepor-se ao Sol, deixando, apenas, um anel de luz em sua volta. A escuridão, que não será total, permitirá, ainda assim, observar as estrelas durante o dia.
"É um momento único que não perdia por nada deste mundo", comenta Rosa Doran, num sotaque brasileiro que não esconde a excitação.
A presidente do Núcleo Interactivo de Astronomia (Nuclio) estima que, esta manhã, o santuário receba cerca de mil pessoas. "400 crianças já estão confirmadas, há 150 pessoas acampadas, outras tantas alojadas nas redondezas e as restantes vêm de manhã", conta a responsável. "O que vão ver será um espectáculo fascinante", prevê, mostrando alguma preocupação por não ter óculos de protecção especiais (ver caixa) para disponibilizar a todos os que, durante cerca de quatro horas, não vão querer despregar os olhos do céu.
"Não contávamos", desculpa-se, contando que a iniciativa de organizar um evento em volta do eclipse nasceu de uma série de coincidências. Em Julho, conheceu José Pimentão, investigador da Sinergia, uma empresa de consultoria ambiental, e de contacto em contacto conseguiram montar um "palco" de observação do eclipse, num lugar remoto e sossegado que, de repente, virou atracção científica.
Atrás dos eclipses
Alguns, poucos, já tiveram a oportunidade de ver um fenómeno semelhante. "Só os que andaram atrás dele", diz Rosa Doran.
José Pimentão foi um deles. Em 1999 rumou ao Norte de França, com 50 estudantes universitários, para observar um eclipse total. "Este vai ser diferente, mas a espectacularidade é igual", assegura, com dificuldade em encontrar as palavras certas para descrever o que se sente diante de um fenómeno deste tipo.
"É como se alguém fechasse a luz e, de repente, apaga-se tudo", refere, recordando os momentos que viveu em França. "É fascinante durante o dia conseguirmos observar as estrelas e até os animais a agirem como se fosse noite e a voltarem aos abrigos".
Hoje a escuridão não será absoluta, mas assemelhar-se-á à penumbra do anoitecer. "É um milagre da Natureza", comenta Jean-Luc Josset, francês, investigador da Agência Espacial Europeia (ESA), ligada ao projecto do satélite de observação da lua "Smart 1".
Estava numa reunião em Coimbra e não quis perder a oportunidade de observar o "milagre". O cientista é responsável pela câmara fotográfica instalada no satélite da ESA e não hesita em mostrar as imagens de um eclipse captadas, em Outubro do ano passado, a milhares de quilómetros da terra.
Hoje, poderá ver ao vivo as imagens que traz guardadas no seu computador portátil. "Mal posso esperar".