Um lugar longe de mais
Pina
Onosso cérebro e os nossos sentidos foram preparados pela evolução para as necessidades básicas da sobrevivência. Os nossos olhos alcançam apenas na estreita faixa do espectro entre o vermelho e o azul e os nossos ouvidos são completamente surdos para a maior parte dos acordes da música do universo. Por isso os nossos sentidos e o nosso cérebro são um cego conduzindo outro cego no meio da escuridão. Felizmente, há a matemática. A matemática ilumina o caminho da razão e permite-lhe avançar passo a passo, perplexa e maravilhadamente, no desconhecido, vislumbrando vultos, reconhecendo sombras, balbuciando o indizível.
Mas nem a matemática (quanto mais a simples aritmética!) nos prepara para a desmesura. Os noticiários de ontem dão conta do último balanço do sismo do Paquistão 75000 mortos. Um número assim é mais fácil de pronunciar do que de perceber. Porque, se tentamos perceber o que sejam 75000 mortos, a nossa razão naufraga, sem nada de reconhecível por perto a que agarrar-se. Não é só o número, é o próprio assombro da morte que não podemos compreender. Três milhões de desalojados é algo que percebemos; mas 75 000 mortos…
E, no entanto, os telejornais deram 30 segundos ao assunto. Afinal, o Paquistão é longe, e "não há portugueses entre as vítimas".
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