Perderam o emprego, a família e os sonhos. E encontraram na droga - na heroína, quase sempre -, um refúgio. Ou o contrário. Experimentaram a droga primeiro, e perderam tudo o resto depois. Nas ruas do Porto, há versões infinitas para explicar a motivação de quem gasta as horas inteiras a arrumar carros até perfazer, diariamente, 30 euros - quantia exacta para adquirir uma dose de vício.
"É sempre assim, dia e noite a trabalhar, se necessário for", testemunha, trepidante, no Largo do Ouro, Augusto Henrique, 30 anos, três dos quais "agarrados ao Aleixo".
Actualmente, "a cidade não terá mais do que 40 arrumadores toxicodependentes", assegura Florbela Guedes, assessora de Imprensa do presidente Rui Rio, citando fonte do "Porto Feliz" - projecto criado pela Câmara, há três anos, para combater a exclusão social. "Poderá haver mais, mas não estão contabilizados, porque não são toxicodependentes, logo, não dependem do "Porto Feliz", mas da PSP", salvaguardou.
Há mais. E Rui Rio, que tinha apontado como prazo limite para a resolução do problema o ano de 2002, é o primeiro a reconhecê-lo. "Hoje admito que a questão dos arrumadores está pior do que há um ano. A Polícia não tem tido a eficácia que eu gostaria para combater essa actividade, que nem sequer é legal", afirmou numa entrevista à Rádio Festival, na semana passada.
Rio não está satisfeito com o desempenho da Polícia, e os arrumadores, por motivos diferentes, também não. "Eles andam aí, vestidos à civil. Chamam-nos para um canto escuro e batem-nos", protesta Luís Lopes, 40 anos, vítima dos "cassetetes e das estaladas", que diz receber de cada vez que tropeçam nele, na Praça Velasquez, nas Antas.
E depois, relata, "há outros, que nos tratam melhor, mas que mostram como isto é tudo uma grande hipocrisia. Mandam-nos ir para outro lado para que a família de Rui Rio, que mora aqui [na zona do Bom Sucesso], não nos veja e não nos denuncie. Que lógica é que isto tem?", indigna-se, a tentar equilibrar o corpo, franzino.
Igual aos outros todos, Luís Lopes é viciado em heroína. "Trabalhava com o meu irmão num restaurante. Depois, ele morreu, a mulher dele vendeu tudo, e eu fiquei sozinho, sem nada. Entrei nisto", encolhe os ombros. Entrou há vinte anos e alimenta a esperança de conseguir sair já amanhã. "Fui, novamente, aceite no programa de metadona." Sobre o "Porto Feliz" diz ter algumas dúvidas. "Há dois anos, levaram-me e deram-me emprego. Enquanto trabalhei na Casa das Glicínias estive bem, limpo. Mas depois, disseram que já não precisavam de mim. E voltei para a rua."
Adalberto Mendonça também voltou. Faz agora um ano. "Porque se volta sempre quando já se perdeu quase tudo", diz a maturidade dos 42 anos espaçados por tratamentos, que lhe permitiram "ficar, no máximo, três anos, sem consumir."
Mas vai tentar outra vez. "Inscrevi-me no Projecto Vida Emprego e vou ser internado para a semana", na certeza de que os quatro pacotes e duas bases de "speed power" (mistura de heroína com cocaína), que consome, diariamente, passarão a fazer parte do passado.
Quer recuperar o emprego - "seja que emprego for" - e deixar "de dormir na rua". O resto, "está perdido para sempre". Perdeu a mulher, os três filhos, a casa e os móveis. "Quando comecei a consumir, já era casado. Não tenho desculpa. Vendi tudo para a droga. Estraguei a minha vida e a deles."