imaturos
diz o Vaticano
"Ahomossexuali- dade aparece como um inacabamento e uma imaturidade intrínseca da sexualidade humana". Pela negativa, foi este o argumento sustentado ontem pelo Vaticano para recusar a ordenação de padres, num comentário anexo à publicação oficial da "Instrução" sobre "critérios de discernimento vocacional" em candidatos a seminários e ordens religiosas. E essa "imaturidade", acrescenta o texto publicado no jornal oficial do Vaticano "Osservatore Romano" e rubricado pelo padre psicanalista francês Tony Anatrella, tanto retira ao homossexual a aptidão "para casar", como "para adoptar crianças ou para aceder ao sacerdócio".
A "Instrução", assinada em Agosto pelo papa Bento XVI e na semana passada revelada antecipadamente pela agência católica italiana contestatária Adista, gerou intensa polémica, no seio da Igreja e fora dela. Mas acaba por se limitar a assentar oficialmente uma linha de pensamento seguida desde sempre. E se se perdeu o qualificativo do passado - "padres sodomitas" - mantém-se a rejeição a Igreja recusa, por escrito, o recrutamento de pessoas com "práticas homossexuais, tendências homossexuais profundamente enraizadas e defensores da chamada 'cultura gay'".
Forçada pela situação
A publicação surge agora justificada por ter sido "tornada urgente pela situação actual", segundo o texto, que evoca "as consequências negativas que podem decorrer da ordenação de pessoas apresentando tendências homossexuais profundamente enraizadas".
Mas Tony Anatrella faz contudo questão de esclarecer que a directiva está "preparada há muito tempo" e não pretende ser "reactiva" aos escândalos de pedofilia envolvendo padres nos quatro cantos do Mundo. Para lá das agressões denunciadas envolvendo padres dos Estados Unidos, também continua fresco nas memórias o caso de um seminário austríaco encerrado no ano passado por esconder abusos sexuais. E, ainda na semana passada, foi a vez de a Igreja do Brasil se ver manchada por escândalos sexuais de larga escala. E, apesar de negar a relação directa entre as regras para admissão no clero e a pedofilia, o psicanalista - e consultor dos conselhos pontificais para a família e para a saúde que participaram na elaboração da "Instrução" - aponta a responsabilidade da "permissividade" desenvolvida "há vários anos em certos países" em "escândalos".
"Limpeza étnica"
Fica a dúvida no ar e a descrença por parte de largas camadas da sociedade, que evocam, entre outros, o facto de a pedofilia tanto envolver homossexuais como heterossexuais. A agência Adista classificava mesmo o documento, quando o divulgou, de "limpeza étnica". Do lado das associações de defesa dos direitos homossexuais, a reacção é cautelosa. António Serzedelo, da Opus Gay, não deixa de apontar, no entanto, "desonestidade moral e científica, porque a homossexualidade deixou de ser considerada doença em 1972".
Nacisistas e manipuladores
Mau grado as reacções, mesmo dentro da própria Igreja, o Vaticano baseia a "Instrução" num retrato psicológico desviante. A descrição do homossexual, tal como o encara a "Instrução" ontem publicada no "Osservatore Romano", segue pelo "narcisismo", a busca da "sedução" e a "dificuldade em cooperar institucionalmente com os outros". "Alguns adoptam condutas afectivas duvidosas, formulam críticas pondo em causa realidades essenciais da vida sacerdotal e contestam as verdades ensinadas pela Igreja".
É denunciado o "risco de passagem ao acto sexual", "as relações muitas vezes fusionais", o "fechamento num clã de pessoas do mesmo tipo", a "relação com a autoridade feita de sedução e rejeição" e o "exercício do governo manipulatório das ideias e pessoas". Detectar sintomas e impedir tudo isto compete agora a todos s bispos e encarregados da formação de seminaristas.
"Como?", perguntaram já diversas vozes dentro e fora da Igreja. Atentando em candidatos com problemas de identificação com o pai, revelando hesitações de identidade, tendência para o isolamento, dificuldade em questionar-se, negação das questões sexuais, sentimento de culpabilidade e vitimização.
A amizade selectiva com outro candidato, experiências homossexuais passadas e a frequência de sites pornográficos na Internet são outros sintomas a ter em conta, ficando contudo o alerta quando ao risco de delação que a "Instrução" pode instalar no seio dos seminários.
Regras rígidas em vigor desde ontem e sem carácter retroactivo. Os padres homossexuais em exercício são convidados a evitar comunidades "com o mesmo tipo de personalidade" e a participação em associações de defesa dos direitos homossexuais.