Odirector da Agência Central de Informações norte-americana (CIA), Porter Goss, não desmentiu, ontem, a existência de prisões secretas da CIA na Europa e em diversas partes do Mundo, onde estarão detidos suspeitos de terrorismo. Por outro lado, negou que os Estados Unidos recorram à tortura, ao mesmo tempo que se recusava a fazer julgamentos sobre certas técnicas de interrogatório utilizadas pelos seus agentes.
Interpelado pela cadeia de televisão norte-americana ABC sobre a necessidade de ter prisões secretas em várias partes do Mundo, Goss respondeu "Estamos a travar uma guerra contra o terrorismo e estamos a fazê-lo muito bem".
"Inevitavelmente, haverá terroristas capturados e, inevitavelmente, deverão ser tratados de acordo com as regras do Direito. É inevitável que tal se passará respeitando a legalidade e em conformidade com as regras e as protecções previstas pelo nosso sistema judicial", disse o director da CIA.
Métodos indefinidos
Garantindo que a agência não emprega a tortura, "porque a tortura é contraproducente", Goss recusou-se a fazer comentários sobre métodos de interrogatório usados pela CIA. Porter Goss escusou-se também a definir exactamente os métodos usados pelos seus serviços, nomeadamente o da "asfixia", afirmando ignorar se esta podia ser considerada tortura.
A cadeia ABC revelou recentemente que os agentes da CIA tinham recorrido, para obrigar a falar suspeitos de terrorismo, a métodos como a privação de sono, exposição ao frio e mesmo a asfixia.
O tema das prisões secretas deverá dominar a visita da secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, à Europa na próxima semana. "Se esta questão for abordada nos encontros previstos da secretária de Estado, seja nos Estados Unidos ou na Europa, ela estará pronta a falar dela", declarou o seu porta-voz, Sean McCormack.
Paradeiro de Bin Laden
Goss também aproveitou a entrevista para adiantar que os serviços secretos norte-americanos têm informações sobre o local onde se esconde Osama bin Laden e sobre a rede da al-Qaeda, embora não as possam revelar publicamente. "Estamos a fazer grandes esforços para averiguar o seu paradeiro. Não quero entrar em detalhes, mas sabemos bastante mais do que podemos dizer", adiantou.
Paralelas
Europa espera por Rice
O ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Frank-Walter Steinmeier, revelou, ontem, em Washington, ter questionado a secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, sobre as prisões secretas da CIA na Europa. "Haverá uma resposta em tempo útil ao pedido de explicações da União Europeia sobre os aviões norte-americanos suspeitos de terem transportado prisioneiros islamitas para prisões secretas da CIA na Europa". "Na altura, examinaremos essa resposta", disse."Penso que foi correcto por parte de Rice não evitar o tema", afirmou.Para Portugal via Canadá
Aviões norte-americanos usados pela CIA e suspeitos de transportarem detidos islamitas efectuaram 55 escalas no Canadá desde 2001, noticiou o "La Presse". Segundo o jornal, alguns dos voos que transitaram pelo Canadá tinham por destino Portugal, Espanha, Reino Unido e a Alemanha, desconhecendo-se, contudo, se eram esses países o destino final. No total, 13 aparelhos aterraram em dez aeroportos canadianos. Oito dos aparelhos transitaram pela base norte-americana de Guantánamo, em Cuba, onde estão detidos centenas de prisioneiros no quadro da luta antiterrorista.
Detenção por tempo ilimitado
A chefe da diplomacia norte-americana, Condoleezza Rice, defendeu, numa entrevista publicada ontem, a detenção por tempo ilimitado das pessoas suspeitas de prepararem atentados terroristas. "Não podemos ficar à espera de que alguém cometa um crime terrorista para o prendermos", porque, se esse alguém cometer o crime, "milhares de inocentes morrerão", disse a secretária de Estado norte-americana ao "USA Today". "Nunca antes travámos uma guerra como esta", acrescentou, referindo-se à luta contra o terrorismo.
Na entrevista, a secretária de Estado recusou confirmar ou negar a existência de prisões secretas da CIA no estrangeiro, uma alegação avançada há um mês pelo diário "Washington Post" e seguida pela imprensa europeia.
Sobre o Iraque, Rice reafirmou que as tropas norte-americanas sairão do país quando Bagdade quiser e considerar que o exército iraquiano está preparado para assumir sozinho a luta contra a resistência.
Rice admitiu que a política norte-americana para o Iraque incluiu alguns erros, mas considerou que "a História demonstrará que algumas coisas que pareciam erros eram, afinal, positivas, e outras que pareciam ter resultado foram, afinal, erros".