Director
José Leite Pereira

Director Adjunto
Alfredo Leite

Subdirector
Paulo Ferreira
 

Viver a doença em privado

Adelino Meireles Fotos

Aporta entreaberta deixa perceber um rosto pequenino a espreitar. Surpreendida à escuta, Natália volta para trás e fecha-se de imediato no quarto. A curiosidade vence-a em poucos segundos e regressa ao corredor para ouvir as conversas. Internada no Hospital Maria Pia (Porto) há um mês com uma doença pulmonar contagiosa, Natália estreou há duas semanas um dos quartos da nova unidade de isolamento, que acolhe também crianças com doenças terminais. Está longe dos outros meninos, mas ali tem condições especiais para bater-se pela saúde.

O "Noddy", a "1º Companhia" e os "Morangos com Açucar" acompanham-na nas longas horas dos seus 12 anos encerrada entre quatro paredes. Já conhece a programação de cor e quando a televisão não a interessa, opta pelo computador. Desinibida, Natália mostra o quarto novo que esconde uma casa de banho só para ela e para a mãe. "Tem outras condições", diz Maria Antónia, aproximando-se da filha que, de quando em quando, tem de se socorrer da água para aliviar a tosse.

O quarto, agora ocupado por Natália, era a antiga sala de pensos e gessos da unidade de saúde. Com donativos generosos, na ordem dos 75 mil euros, a Liga dos Amigos do Hospital Maria Pia conseguiu dividir o espaço em dois quartos e equipá-los. Para dar às crianças o que mais precisam privacidade, atenção e carinho.

Governo não dá verbas

"Era uma das minhas primeiras preocupações quando aqui cheguei", diz Maria Clara Gomes, presidente da direcção da instituição de solidariedade, com a mesma rapidez com que decide qual é o próximo "fogo" a apagar. Puxadores para os armários, pinturas nas paredes do internamento do hospital de dia, brinquedos para o Natal. A Liga é responsável por tudo o que de novo surge no hospital nos últimos 10 anos. Porque da Administração Central não chega o que quer que seja. "Todos os financiamentos que pedimos vieram para trás", conta Manuela Machado, presidente do Conselho de Administração do Maria Pia.

A "ginástica" que a direcção do hospital tem de fazer para acolher o melhor que pode as crianças doentes, deixa clara a necessidade urgente de uma nova unidade pediátrica. "Seja onde for, mas novo e perto de um hospital central", reclama Manuela Machado, lembrando que o Maria Pia está instalado num casa antiga que não foi construída para ser um hospital.

Enquanto do Governo não chegam novidades, as obras para melhorar o Maria Pia têm de continuar "até porque não se faz um hospital de raiz do dia para a noite", acrescenta Maria Clara Gomes. Quando entrou para a direcção da Liga dos Amigos do Maria Pia, em 2000, já tinha ouvido dizer que o hospital ia ser substituído. Passaram cinco anos e as soluções ainda estão a ser estudadas. Outros tantos serão precisos para as executar. "Se fossemos a contar com as promessas, não tinhamos feito nada".

"Chego à noite e durmo com uma tranquilidade enorme"

A agenda é a grande inimiga de Maria Clara Gomes. Há cinco anos que lidera a Liga de Amigos do Hospital Maria Pia e trava um conflito diário com o tempo para se desdobrar nas tarefas que a associação exige. "Comecei a viver isto de tal maneira que até os meus filhos ficaram prejudicados", diz. Mas a recompensa chega à noite. "Deito-me e durmo com uma tranquilidade enorme", contrapõe, sorrindo. Sorriso que aumenta quando recorda as melhoras que a instituição de solidariedade social já introduziu no hospital. A actividade da Liga dos Amigos do Maria Pia divide-se em três vertentes o fornecimento de equipamentos ao hospital, o apoio às famílias carenciadas com medicamentos e alimentos quando vão para casa ou verbas mensais para papas e fraldas; e, por fim, a humanização dos espaços, como a pintura das paredes que tornam o hospital mais acolhedor. "Temos de criar espaços com dignidade para as crianças se queremos ter adultos saudáveis", defende a responsável, que não se cansa de elogiar a presença da escritora Agustina Bessa-Luís na presidência da Assembleia da Liga. "Conseguimos outra dinâmica", garante. A todos os que apoiam a associação, Maria Clara Gomes também não poupa elogios. Em treze anos de existência, a Liga conseguiu angariar verbas superiores a 300 mil euros. Os investimentos estão à vista.

Como ajudar

Contribuir

A instituição que apoia o Hospital de Crianças Maria Pia tem uma conta aberta no BPI. O nib para transferência bancária de donativos é 001000002375536000138.

Ser associado

Para ser associado da Liga dos Amigos do Maria Pia pode ligar para o número 226068282 e pedir a respectiva ficha de inscrição. O documento ser-lhe-á enviado para casa para posterior devolução quando preenchido. A quota anual é de 25 euros.

Angariação

Além dos donativos dos associados, a instituição de solidariedade social promeve todos os anos um chá, um jantar e um torneio de golfe para recolha de fundos.

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