Os portugueses auferem vencimentos inferiores, produzem menos e procuram menos o dentista do que os espanhóis, mas têm mais carros, comem mais batatas e recorrem mais ao telemóvel do que os vizinhos. Estas são algumas das conclusões do estudo "A Península Ibérica em números", ontem divulgado conjuntamente pelos institutos nacionais de estatística (INE) dos dois países. O trabalho mostra, também, que apenas a região de Lisboa consegue equiparar-se a algumas das regiões mais ricas de Espanha, seja no rendimento disponível, seja nas idas ao cinema.
De acordo com o estudo, há em Portugal, em média, 558 carros por mil habitantes, enquanto em Espanha este indicador é de 460, apenas três abaixo da média da UE.
São poucos os lares portugueses que dispõem de ligação à internet. Em média, esta tecnologia está disponível em 26% das casas - contra 34% em Espanha e 43% na UE, em média - enquanto nas empresas com mais de dez trabalhadores, a diferença entre um país e outro varia é de 77% para 87%. Se a análise incidir no número de computadores por lar, constata-se que apenas Lisboa surge ao nível da Catalunha, País Basco ou Comunidade de Madrid, onde a existência deste equipamento se situa entre 50% e 60%. Neste domínio, apenas o Algarve consegue escapar também (mas em menor escala) à reduzida média nacional. Outro dos dados onde Lisboa se equipara a Espanha é nas idas ao cinema (neste campo, mais uma vez, a região da capital se distancia do resto de Portugal), no rendimento per capita (entre 17 e 24 mil euros, contra uma média nacional de 12500) ou no número de médicos por mil habitantes (entre três e cinco, quando no resto do país esta relação oscila entre um e três). Num país como Portugal, onde a economia tem mostrado dificuldade em recuperar - com a curva do Produto Interno Bruto a "perder" terreno para Espanha desde meados de 1998 - e onde os dados mostram que muito do que consumimos é importado, não deixa de surpreender que, ainda assim, os vizinhos ibéricos ostentem um défice comercial superior ao nosso.
Os estudo, feito com base em dados do Eurostat para evitar diferenças na metodologia, mostra que Espanha absorve 24,9% das nossas exportações e nos vende 29,3% do que importamos. A relação comercial não é recíproca, já que o grande mercado exportador espanhol é a França, e o o grosso das importações é feito da Alemanha. Na Educação, o estudo revela que por cá há mais procura de licenciaturas nas áreas das ciências da educação, sociais, saúde e serviços sociais, e em Espanha se aposta nas engenharias, indústria, gestão e administração.
Outra das grandes diferenças é o custo do trabalho na indústria e serviços, que aqui ronda os 1343 euros por mês e lá ascende a 2017 euros. Se a comparação for feita apenas para a indústria, a disparidade é ainda mais acentuada 1162 euros e 2306 euros mensais. Na produtividade, a performance dos nossos vizinhos mostra-se também mais favorável. Há, porém, indicadores de desenvolvimento em que "batemos" a Espanha. É o caso do comércio electrónico, que por cá representa 1,3% do total das vendas (acima dos 0,4% em Espanha, mas inferior à média de 2,1% da UE), ou das assinaturas de telemóveis - 96 por 100 habitantes entre nós; 90 do lado de lá da fronteira e 81 na UE.
Patronato com menos instrução
Os trabalhadores portugueses e espanhóis têm um nível de instrução mais elevado do que os respectivos patrões, mas o desequilíbrio é maior entre nós. Segundo o INE, em Portugal, um em cada quatro patrões possuía, em 2004, curso superior ou o ensino secundário completo, o que equivale a metade da percentagem que Espanha ostenta. Ao nível dos empregados, 13% têm habilitações de nível superior, contra apenas 11% dos patrões. Em Espanha, esta relação é de 31% para 27%. Tal desequilíbrio, menos acentuado na União Europeia, verifica-se em todos os graus de ensino.