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De cócoras!

por honório novo deputado do pcp

Vários jornais da semana passada fixaram um momento singular que mostra bem quanto a parolice governamental pode gerar actos de subserviência verdadeiramente ofensivos da dignidade de um país secular.

As fotos reproduzidas não deixam margem a dúvidas seis ou sete ministros perfiladamente curvados a assinarem papéis sobre uma longa mesa; um outro ministro, numa das extremidades da mesa, erecto a olhar os restantes, vendo se assumiam uma postura correcta, de cabeça bem baixa e corpos alinhados; um último ministro, nervoso, à espera de poder ocupar um lugar vago na fila da frente e poder também assinar os papéis que aquele senhor tinha distribuído. No fundo da sala, em plano elevado, uma mesa tutelar com dois homens refastelados a cofiar o queixo e a beberricar água do gargalo das garrafas: um deles, o primeiro-ministro e grande responsável por aquele espectáculo indigno, o outro, o patrão da Microsoft, a gozar (porventura incrédulo) aquela cena, enquanto fazia contas sobre os resultados desta venda directa que tinha vindo apalavrar em Lisboa.

É óbvio que, perante o que se deparava diante dos olhos, poucos questionarão a eventual bondade de alguns dos protocolos vertidos naquele monte de papéis. Por momentos, ninguém quererá mesmo saber quando e como é que todas aquelas intenções protocoladas vão ser concretizadas, quanto é que o Estado português vai pagar por tudo aquilo (e durante quanto tempo e com que obrigações futuras), o que poderá aquilo tudo representar de dependência face a um único fornecedor monopolista, o que significará a eliminação concertada da concorrência e de concorrentes no fornecimento de serviços e de equipamentos informáticos para toda a Administração Pública portuguesa!... Por momentos somos capazes de esquecer tudo isto e até reconhecer que algumas das intenções e objectivos possam mesmo ser úteis na formação de portugueses…

O imperdoável, e que ninguém pode esquecer, foi aquele acto e o significado que encerra. Causou náuseas e repulsa. Sentimo-nos ofendidos pela forma como o Governo do PS (e também o presidente da República) não souberam preservar o país do ridículo internacional e transformaram um simples empresário (ainda por cima recentemente condenado ao pagamento de quase 500 milhões de euros de multa por violação das regras da concorrência), num chefe de Estado ou monarca de um país soberano em visita institucional a Portugal.

Encontros, reuniões e recepções de alto nível com figuras de topo da hierarquia e de diversas instituições nacionais, até mesmo a atribuição de uma condecoração, tudo serviu para preencher a agenda da visita de Bill Gates, mostrando à perfeição como alguns dos que exercem cargos de maior responsabilidade na política em Portugal se colocam imediatamente de cócoras perante um qualquer bill(ionário) que por aí apareça a distribuir (mais exactamente a vender) algumas benesses.

Bill Gates faz regularmente périplos do género do que este ano o levou a visitar Portugal. Só que, em nenhum outro país europeu e desenvolvido seria sequer imaginável assistir a uma cena como aquela (e que julgo terá até levado o próprio empresário a esfregar os olhos para verificar se estava mesmo acordado). A verdade é que o Governo do PS não se colocou apenas a ele, aos seus ministros e assessores, a assinarem de forma indigna e reverencial aqueles papéis. A verdade é que o Governo do PS arrastou todo o país para um acto indigno e terceiro-mundista que a todos faz corar de vergonha!

honorio.novo@sapo.pt Honório Novo escreve no JN, semanalmente, às segundas-feiras

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