Os efeitos da actual seca, que começou no Outono de 2003, vão estender-se este ano e serão mais severos no Norte, segundo um relatório que alerta para os reflexos da falta de chuva prolongada no domínio hidrológico.
O documento da Direcção de Serviços de Recursos Hídricos do Instituto da Água (INAG) refere-se aos primeiros quatro meses do ano hidrológico 2005/2006, que teve início em Setembro.
"Os armazenamentos [nas albufeiras] estão a reflectir a falta de chuva. A nível de precipitação, sente-se logo a seca no primeiro ano, mas a nível de armazenamento estes efeitos são mais retardados e propagam-se no tempo", disse à agência Lusa Rui Rodrigues, um dos autores do relatório.
Chamando a atenção para o facto da actual seca ser plurianual, uma vez que começou no Outono de 2003, o especialista frisou que os seus reflexos tem tendência a ampliar-se, sobretudo nas albufeiras mais pequenas.
No último dia do mês de Janeiro, os armazenamentos do mês passado nas 12 bacias hidrográficas monitorizadas pelo INAG eram todos inferiores às médias de Janeiro no período 1990/2000.
Das 57 albufeiras monitorizadas, apenas oito tinham um volume armazenado superior a 80 por cento, enquanto 17 tinham reservas inferiores a 40 por cento do volume total.
O que seria expectável, salienta o relatório do INAG, seriam variações entre os 70 e 80 por cento do total armazenável, mas apenas as bacias do Mondego (66,5 por cento), Tejo (70 por cento), Mira (63,1 por cento) e Guadiana (64,2 por cento), se aproximam razoavelmente deste valor.
As situações abaixo dos 50 por cento, "e como tal merecedoras de um acompanhamento mais pormenorizado" verificam-se na bacia do Sado, Bacias do Oeste (albufeira de São Domingos) e Arade.
Em termos pluviométricos, a seca está a ter maior severidade na região Norte, sobretudo numa faixa central e mais setentrional em Trás-os-Montes, já que é aqui que os valores mais se afastam do padrão médio de chuva.
Na região Norte, a probabilidade de acontecer uma seca semelhante à actual (período de retorno) é de 120 anos, enquanto a sul do Vouga é apenas de 35 anos.
O documento salienta ainda que a situação pluviométrica actual apresenta semelhanças com a do ano 2003/2004 "ainda que mais acentuadas em severidade".
O armazenamento deste ano é significativamente inferior ao de Janeiro de 2004 devido à característica interanual desta seca que foi fazendo diminuir os volumes armazenados sem haver reposição significativa das reservas de água.
Ministro da Agricultura admite criar Comissão da Seca 2006
O ministro da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas, Jaime Silva, mostrou-se hoje preocupado com as reservas de água nas albufeiras do país e admitiu reactivar a Comissão da Seca se não chover até ao próximo mês.
Em declarações aos jornalistas durante uma visita à sede da Associação de Criadores de Bovinos de Raça Alentejana, na Herdade da Coutada Real, em Assumar (Monforte), Jaime Silva declarou que a Comissão da Seca 2006 "será criada se não chover até Março".
A Comissão para a Seca 2005 cessou funções em Janeiro deste ano, mas o ministro do Ambiente garantiu na altura que seria mantido um pequeno grupo para acompanhar a situação.
Apesar de a falta de água "não estar, para já, a afectar as culturas de Inverno", Jaime Silva manifestou-se preocupado com as reservas de água nas albufeiras do país, em particular em Trás-os Montes.
"A situação era grave no ano passado e as reservas das albufeiras continuam extremamente baixas em algumas localidades do país, porque não tem chovido o suficiente para repor os níveis, até, e curiosamente, em Trás-os-Montes", sublinhou.
"Vamos aguardar com serenidade e calma, sabendo nós que temos uma situação que começa a preocupar-nos bastante, que é o que está a passar-se em Trás-os-Montes", frisou.
Durante a visita à Associação de Criadores de Bovinos de Raça Alentejana, Jaime Silva considerou um "caso de sucesso" o que tem sido feito pelos agricultores daquela região na criação e defesa de uma raça portuguesa.
"Há mais casos de sucesso no país (à), mas este é particularmente importante, uma vez que, depois de uma grande crise que afectou o consumo de carne de vaca, no seguimento da doença da BSE, conseguiram provar que é possível em Portugal (à) produzir uma carne de qualidade", sustentou.
A Associação de Criadores de Bovinos de Raça Alentejana, dispõe de 107 animais na Herdade das Coutadas, em Assumar, e representa 158 criadores oriundos do Alentejo, Ribatejo, Beira Baixa e Extremadura.