Olançamento de uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) alternativa sobre a Portugal Telecom (PT) pode acabar por não se realizar por falta de liquidez financeira. O JN apurou que a pretensão do grupo liderado por Ricardo Salgado, em nome do Banco Espírito Santo (BES) e ontem noticiada pelo "Jornal de Negócios", está a encontrar entraves por falta de financiamento. O grupo de empresários e financeiros portugueses, em que se destacam Ricardo Salgado, Patrick Monteiro de Barros e Ilídio Pinho, não terá ainda desistido de avançar, mas a entrada do Crédit Agricole - principal parceiro do BES - não está a ser fácil de garantir.
O Crédit Agricole, que entrou no BES com o Grupo Espírito Santo no âmbito das privatizações no final da década de 80, detém 8,8% do capital social do grupo bancário português. Fontes do mercado financeiro disseram ao JN que o banco francês não demonstrou muito interesse em entrar num negócio que exige grande liquidez financeira. Para se ter uma ideia do esforço exigido, basta recordar que o capital social do BES é de 1,5 mil milhões de euros e que o valor necessário para uma OPA alternativa ronda os 12 mil milhões, ou seja oito vezes mais.
Telefónica
Ontem, o Santander, que financia a operação da Sonae, considerou "pouco provável" que a Telefónica avance com uma OPA alternativa, argumentando que a dívida da empresa espanhola aumentou para 54,4 mil milhões de euros, depois da aquisição da britânica O2, e que o Governo português poderia travar uma investida espanhola sobre a maior empresa nacional.
Num estudo publicado pelo banco sobre o impacto da OPA da Sonae na Telefónica, o Santander avalia o negócio do fixo da PT em 5,1 mil milhões de euros, a TMN em 4,6 mil milhões e a PT Multimédia em 3 mil milhões. Para o Santander, num cenário de alienação de activos, a prioridade da Telefónica seria comprar a parte da PT na Vivo.
A especulação à volta da iminência de uma OPA alternativa na PT tem animado a Bolsa de Lisboa e fez subir o papel da empresa para um valo r superior ao oferecido pela Sonae.
Financiamento
No caso da Sonae, que o JN sabe que já gastou entre 30 a 40 milhões de euros para montar a operação de compra, o modelo de financiamento ainda não está totalmente definido. De resto, a principal dúvida está por responder a quantidade de acções da PT que o grupo de Belmiro de Azevedo vai ter de comprar. Caso a totalidade dos accionistas decida vender a sua participação, Belmiro terá de despender perto de 12 mil milhões de euros. Se ficar no limite mínimo que garante o controlo da empresa (50,01% do capital social), esse valor passa para metade. Sabe-se que parte da operação deverá financiada através de um aumento de capital da Sonae, até 1,5 mil milhões de euros, mas o montante em falta será conseguido através de emissão de dívida.
Recorrendo ao crédito, pode optar-se por empréstimos de curto prazo, cujo objectivo é financiar operações a 90, 120 ou 180 dias (com taxas de juros mais baixas mas com maior urgência de liquidez financeira) ou de médio e longo prazo.
No caso da Sonae, optou-se por esta última opção o pagamento será feito em sete anos, mas é de crer que, caso a OPA seja bem sucedida, haja amortizações num futuro próximo. As verbas conseguidas com eventuais vendas de uma das redes fixas da PT ou da participação na operadora brasileira Vivo podem ter como destino pagamentos à entidade bancária.
Apesar de o valor da taxa de juro ser confidencial, acordada entre Sonae e Santander, fonte do mercado estima que esta se situe entre os 5% e os 6%, já que a operação, apesar dos montantes elevados, não é de risco tanto a PT como a Sonae são empresas sólidas, do ponto de vista financeiro. A entidade bancária aceita o empréstimo mediante garantias prestadas pelos devedores, o que invariavelmente acontece sob a forma de acções. No caso, o Santander recebeu garantias de acções da Sonaecom ou da PT.
O credor pode optar, caso não tenha liquidez, por reunir dinheiro de outras entidades. No caso do Santander, um dos maiores bancos europeus, tal não deverá ser necessário, já que os activos próprios devem ser suficientes para assegurar toda a operação.