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Jovens são cada vez mais fãs do fado

César Santos Fotos

À"Tasca do Chico", na Rua do Diário de Notícias, no Bairro Alto, em Lisboa, ruma, todas as segundas e quartas-feiras, gente que quer ouvir e cantar fado. Quando o espaço lá dentro não chega, ficam à porta, à espera de que alguém saia para poderem tomar o seu lugar. A romaria de apreciadores, maioritariamente composta por portugueses, muitos jovens, e alguns estrangeiros a viver em Portugal, é a prova de que o fado está vivo e se recomenda.

Basta um passeio a pé pelas ruelas de um dos bairros mais típicos da capital, ponto de passagem obrigatória para quem gosta da vida da noite, para ver que a canção nacional continua a ter muitos aficionados. E engana-se quem pensa que são só turistas estrangeiros. Se isso é sobretudo verdade nas casas de fado, nas poucas tascas típicas que resistem ao passar dos anos são de Portugal os que querem apreciar o talento de fadistas e guitarristas.

Foi em 1994 que Francisco Gonçalves, natural de Amarante e a viver no Bairro Alto desde 1972, abriu a "Tasca do Chico". Trabalhava na "Adega Mesquita", conhecido restaurante e casa de fados do bairro, e começou a aperceber-se de que as tascas típicas estavam a fechar para dar lugar aos bares. "Era com pena que via isso". Com o "bichinho do fado", Chico decidiu aventurar-se e criar o seu próprio negócio, reservando duas noites por semana para o fado vadio.

Recortes nas paredes

Pegou num antigo armazém de queijos e charcutaria que abastecia os restaurantes do bairro e transformou-o no seu espaço. Não fez grandes mudanças. "O meu objectivo era fazer mesmo uma tasca". Limitou-se a pendurar nas paredes alguns recortes de jornais, notícias sobre fadistas, a maioria de publicações já extintas. Hoje, já lá estão recortes que falam da sua tasca e fotografias de fadistas e de gente conhecida que por ali passa.

"Entra aqui de tudo novos, velhos, pretos e brancos. Tanto vem o que dorme ali no Chiado e canta o fado, como a Mariza e o Camané", garante, mostrando, orgulhoso, uma fotografia assinada da fadista. "Eu não convido ninguém. Só os músicos. Quem quiser cantar aparece". "Há noites em que chegam a ser 30. Nem metade consegue", diz.

"Estou a meter água"

Chico garante que nunca gastou "um tostão em publicidade" e que a fama da casa - que já lhe granjeou várias reportagens, inclusivamente na televisão inglesa BBC - tem passado de boca em boca. Justificação "As pessoas sabem que aqui, mesmo que cantem mal, levam palmas".

Foi o que aconteceu ao senhor Reinado, 82 anos, presença assídua na tasca. Sentado na mesa dos músicos, aguardou pacientemente a sua vez de cantar. Mora na Rua de S. Bento e, sempre que a voz o deixa, aparece para um ou dois fadinhos. "Gosto da casa, do ambiente", diz, explicando que nasceu na Mouraria e, desde pequeno, se habituou a acompanhar o pai aos fados. "É da minha infância". Desta vez, a voz atraiçoou-o. "Vocês desculpem-me, estou a meter água", confessou ao público, que, ainda assim, o brindou com muitas palmas.

Sentados numa das poucas mesas de madeira estão Irina, uma russa de 29 anos, e Ivan, de 22, economista, ambos a viver em Lisboa. Bebem cerveja, depois mudam para sangria. No ar há cheiro a chouriço assado. Na mesa, hiperconcentrado na música, está Dean, croata, 31 anos. Os três amigos juntam-se frequentemente ali e até já conseguem trautear algumas letras. Dean garante que a tasca "é a melhor casa de fados de Lisboa. Os melhores guitarristas estão aqui".

Os fadistas sucedem-se uns atrás dos outros, apenas com breves paragens para descanso dos músicos. João Roque, "mestre de cerimónias" e também fadista, conhece-lhes as caras e chama-os quando chega a sua vez. "Com barulho não há fados! Agora escolham", grita para o público, a quem não se cansa de mandar calar. Se na tasca houver caras conhecidas do mundo do fado - nesta noite eram Pedro Moutinho, irmão de Camané, e Gonçalo Salgueiro, uma das novas vozes do fado - também são desafiados.

Nessa noite, a viola está entregue a Chico Borges e a guitarra portuguesa a José Manuel Duarte. Ambos concordam que o ambiente da tasca nada tem a ver com o das casas de fado. "É mais familiar, completamente informal", diz José Duarte, salientando que há muitos jovens que ali vão "porque sabem que podem cantar, sem reparos". Diz que para cantar fado, mais do que voz, "é preciso ter alma" e "saber contar uma história".

Chico Borges diz que a "Tasca do Chico deve ser das casas menos formais que existem" e considera que ali se está "mais perto da raiz do fado". "Até para nós se torna mais engraçado assim", atesta, explicando que é preciso saber lidar com o imprevisto para poder acompanhar os que sabem e os que não sabem cantar. "Aqui toca-se em cima da hora e do momento".

Velas fazem ambiente

Basta dar meia dúzia de passos, cruzar a esquina e virar para a Rua da Barroca para encontrar um outro ambiente de fado. No restaurante "O Faia" - casa aberta desde 1947 e inicialmente propriedade de Lucília do Carmo, mãe de Carlos do Carmo, que o explorou até 1980 - os imprevistos raramente acontecem. O fado, "servido" a partir das 21.30 horas, de segunda a sábado, está entregue a profissionais. A casa tem um grupo de quatro fadistas residentes, que asseguram o espectáculo. As suas fotografias estão expostas à entrada e, sempre que um deles não está presente, a moldura é retirada. Uma questão de seriedade e de respeito para com os clientes, explica Pedro Ramos, gerente do restaurante.

Dar máxima prioridade à gastronomia e apresentar fado de qualidade são as preocupações dos proprietários do "Faia", que é principalmente procurado por turistas estrangeiros. Cerca de 60% a 70% do total de clientes, que o descobrem através de roteiros e de pesquisas na Internet. Ainda assim, Pedro Ramos orgulha-se de ser "uma das casas que mais trabalham com portugueses". "É sinal de que as casas de fado não são só para turistas e que, afinal, não se come mal no fado", diz, admitindo que "durante alguns anos isso teve alguma verdade". "Acho que se está a retomar o bom caminho".

O ambiente é de requinte. À entrada, os clientes são recebidos com um aperto de mão e entregam os casacos, que são guardados no bengaleiro. Depois, são encaminhados para a sala, onde comem à luz de velas e com serviço esmerado. À hora certa, músicos e fadistas sobem ao palco, vestidos a rigor.

Amália chamou os jovens

Pedro Ramos diz que os clientes portugueses são "fixos" e que "os jovens vão vindo cada vez mais". Sendo ele jovem, não tem dúvidas em afirmar que a morte de Amália Rodrigues contribuiu para aproximar a juventude do fado. "Até quando faleceu D. Amália foi importante. Principalmente para esta faixa etária mais jovem, que não dava tanta importância ao fado e ao papel que ele presta à cultura e ao país".

Ir ao "Faia" ouvir fado não é, contudo, barato. Em média, 45 a 50 euros por pessoa, diz Pedro. Para os que não queiram jantar, a casa criou um outro preço, que permite assistir ao espectáculo e tomar uma bebida 17,50 euros. Também há pessoas que, tendo jantado noutros sítios, optam por ir ali comer a sobremesa, enquanto assistem ao espectáculo.

A existência de um público diversificado e a coexistência das tradicionais casas de fado com as tascas de fado vadio são a prova de que a canção nacional está de boa saúde. Já diz a letra "Enquanto houver Portugal e um coração de mulher, nunca o fado há-de acabar".

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