nicialmente, ninguém levava a sério Diogo Fernandes quando este afirmava que queria ser pastor quando fosse grande. Agora, com sete anos de idade, já ninguém parece duvidar que o miúdo venha mesmo a cumprir o que parece ser uma decisão irreversível.
É difícil dizer se Diogo mora na Monteira, freguesia de Vila Nova do Ceira, ou em Vale das Eiras, freguesia de Alvares. Na Monteira habitam os pais e uma irmã com 11 anos. A caminho vem mais um irmão.
É na Monteira que Diogo pernoita desde que, aos cinco anos, foi para o jardim-de-infância local. É a própria mãe que reconhece que, apesar de Diogo adorar os pais e a irmã, é junto dos avós paternos que quer estar. Todos os fins-de-semana e férias são passados com Fátima e Manuel, que o criaram desde os oito meses de idade. Diogo gosta da escola onde frequenta o 1º ano, em Vila Nova do Ceira, mas não está muito satisfeito com a distância que o separa de Vale das Eiras.
É um aluno aplicado, brinca como as outras crianças. Isto, de segunda a sexta-feira de manhã. A tarde do penúltimo dia da semana já é passada com muita agitação. Diogo já só pensa na aldeia serrana, em plena serra do Açor, lugar onde só habitam os avós, dois tios, uma tia e uma prima um pouco mais nova, todos na mesma casa. São os tios que o levam, mas quando se atrasam chora e o pai tem de o ir levar.
Em Vale das Eiras, Diogo sente-se como peixe na água. É ali que percorre caminhos com um rebanho de 200 cabras, montado na Boneca, a burra. Mas só se por perto não andar o Mulato, o cavalo, que parece meio enciumado quando se aproximam, quem sabe, da sua Boneca. É, talvez, o único animal que impõe algum "respeito" a Diogo. Recentemente, a bisavó passou a estar acamada e o casal viu-se obrigado a vender o rebanho. O desgosto foi tão grande que, em jeito de prenda de Páscoa, em vez das amêndoas e do bolo, Diogo, vai ser presenteado com um rebanho com 40 cabras.
Quando se encontra na Monteira, Diogo vai matando as saudades dos seus animais com as idas diárias a casa dos avós maternos, agricultores a tempo inteiro e onde não falta uma vaca, uma parelha de bois, galinhas, coelhos e, claro, cinco cabras, que fazem as delícias do menino.
Diogo transforma-se quando está perto de animais. Em casa dos avós maternos, logo que chega começa a dar erva à vaca e a brincar com as cabras. Domina-as, amansa-as, "muito melhor que os pastores adultos", garantem orgulhosos os avós Mário e Maria Susana. Na família ninguém sonha com um futuro tão duro para o Diogo. Ter um rebanho significa trabalhar 365 dias por ano. Mas, se essa for a opção de Diogo, a família apoia. "Que mais podemos fazer se ele diz que descansar é estar com as cabras na serra?", questiona a mãe. Televisão, só os Morangos com Açúcar. O resto do tempo é passado a transformar no seu imaginário todos os brinquedos em cabras, às quais dá nomes, tal como no seu rebanho que viu partir com tristeza.