Acampainha, estridente, ouve-se logo que se entra no Parlamento, dois pisos abaixo da sala de sessões. Chama insistentemente para a reunião plenária de perguntas ao ministro do Trabalho e da Solidariedade Social. São 9.55 horas e as bancadas estão despidas.
A socialista Leonor Coutinho é a primeira a assinar o livro de ponto, um minuto depois. A chegada de deputados vai-se fazendo a conta-gotas, em dia de partida para o fim-de-semana. Já é uma "tradição" os plenários das sextas-feiras serem pouco concorridos e muitas vezes com agendas consideradas desinteressantes.
Não é o caso. Vieira da Silva e os seus três secretários de Estado, que entram logo a seguir às 10 horas (com apenas 23 parlamentares na sala), levam na bagagem temas polémicos como o desemprego, a sustentabilidade da Segurança Social ou as medidas de apoio a idosos (ver página 14).
Nem por isso a abertura do debate desperta grande interesse. Os murmúrios são generalizados nas bancadas. Há quem aproveite para espreitar os jornais da manhã. Quem fale ao telemóvel. Quem converse com colegas, de pé. Gestos normais, como se viria a verificar durante a sessão, não houve um único momento em que todos os presentes estivessem sentados.
Contas difíceis
O quórum para discussão parlamentar é de um quinto dos deputados eleitos - ou seja, 46 de 230. No arranque da sessão a fasquia é superada à risca, com 47 presenças. As contas, contudo, são difíceis de fazer, dado o constante entra e sai. Meia hora depois, quando se assiste à primeira troca acalorada de acusações entre PSD e Governo, são já 97. Dez minutos mais tarde, 74. Uma hora e meia depois ainda se assina o ponto.
Pouco? Em tempo de polémicas sobre as faltas dos deputados, parecerá. Ainda assim, vários confidenciam que "no passado foi pior". Na "bancada" dos jornalistas ouve-se a mesma opinião "Há muito tempo que não via tanta gente a uma sexta-feira. Parecem meninos. Levam uma estalada e portam-se bem", comentava uma jornalista parlamentar. O contraponto, pela voz do assessor de um grupo parlamentar, chegava cinco minutos depois: "Nunca estiveram tantos jornalistas a uma sexta-feira normal".
O trabalho dos deputados, claro está, não se limita ao plenário e, embora habitualmente não haja agendamentos das comissões para as sextas-feiras, há sempre trabalho de gabinete. Eventuais explicações para que ontem apenas cerca de um terço dos deputados estivesse na sala mesmo nos momentos mais "quentes" do debate.
Como quando Vieira da Silva acusou várias bancadas de terem "dor de cotovelo". Ou quando Pedro Mota Soares (CDS) interpelou a Mesa por sentir que não lhe tinham sido dadas as respostas pedidas, aproveitando para se queixar da "desconsideração" de ter sido o secretário de Estado e não o ministro a responder à sua bancada, originando a intervenção do ministro dos Assuntos Parlamentares, Santos Silva.
O bulício parece ser uma "doença" contagiosa no hemiciclo. Ao mesmo tempo que Paulo Portas e Telmo Correia conversam animadamente, mesmo durante a intervenção da colega de bancada Teresa Caeiro, nas galerias os grupos de estudantes saltitam incessantemente e entre os jornalistas discutem-se notícias dos jornais do dia. Feitas as contas, quando Jaime Gama encerra a sessão, fecham-se duas horas e um quarto de mais uma sexta-feira a meio-gás.