Com boas condições atmosféricas e da via, durante o dia, em viagens curtas, com fluxos de trânsito reduzidos e envolvendo condutores que se sentam frequentemente ao volante. Foi este o quadro em que ocorreu a maioria dos acidentes com vítimas mortais em 2005, segundo um estudo sobre causas da sinistralidade ontem apresentado pela GNR e que aponta falhas humanas como estando na origem directa de 91% dos casos.
Não sendo propriamente surpreendente no tipo de comportamentos apontados - condução em excesso de velocidade à cabeça, seguida de infracções rodoviárias (a principal condução sob efeito de álcool) ou distracções (ver infografia) -, o estudo quantifica indicadores até hoje quase intuitivos.
Perante a análise dos acidentes com vítimas mortais ocorridos na zona de intervenção da GNR, percebe-se que 56% foram em pleno dia e 82% com boas condições atmosféricas. Mais de 75% registaram-se em deslocações de menos de 50 quilómetros, cerca de 80% envolvendo condutores frequentes (e 18% que conduzem todos os dias), 90% em momentos de pouco volume de tráfego.
Números que parecem indiciar excesso de confiança dos condutores? A resposta, para o major Pereira Leal, que chefia o Serviço de Investigação de Acidentes Rodoviários, não é linear, embora admita que se "pode especular à volta disso". Salientou que num acidente intervêm sempre várias causas, mas uma é considerada determinante sobre as outras. É a esse nível que se sobrepõem as falhas humanas, em detrimento das condições da via (responsáveis por 6% dos acidentes mortais) ou do veículo (apenas 2%). Em 1% dos casos não foi determinada a causa directa.
Sem surpresa são os números sobre consumo excessivo de álcool. Dos 117 condutores em infracção (incluídos num conjunto qualificado "condições psico-físicas), 76 revelavam taxas acima de 1,2 gramas por litro de sangue (taxa crime). Foram ainda quantificados 138 condutores com sono ou fadiga, 16 em situação de stress e 10 influenciados por estupefacientes.
Os dados foram divulgados no âmbito do I Seminário Internacional sobre Segurança Rodoviária, promovido pela GNR e que prossegue hoje na Escola Prática da Guarda, em Queluz. "Entender os porquês" da sinistralidade é o mote do encontro, já que essa compreensão permitirá intervir em níveis como a prevenção ou a acção fiscalizadora.
Limites de velocidade
Para o comandante-geral da GNR, Mourato Nunes, a médio prazo exigem-se, contudo, "intervenções de fundo". Como sugestões, apontou a "generalização das medidas de acalmia de tráfego nos espaços urbanos", a "correcção de traçados críticos ou a adopção de novos padrões de qualidade e eficiência na concepção, gestão e manutenção da rede viária".
Perante uma plateia em que não se integrou qualquer membro do Governo (e mesmo o director-geral de Viação participou apenas no início dos trabalhos e no primeiro "crash test"), Mourato Nunes defendeu igualmente uma redução selectiva dos limites de velocidade - "nas vias urbanas e nas estradas sem condicionamento de acesso". Como sublinhou, "a redução de 1% na velocidade média poderá significar a diminuição dos acidentes, em cerca de 3%, e do número de mortos e feridos graves, em 5%".
Para hoje, o seminário reserva análises sobre a actuação de várias polícias europeias ao nível do trânsito, com exemplos vindos de Espanha, França, Holanda, Alemanha e Reino Unido. A "Gendarmerie" francesa irá revelar dados sobre o controlo automático de velocidade (sistema que conjuga rede de radares e câmaras de vigilância) que parecem comprovar a sua eficácia na prevenção. A taxa de violação dos limites de velocidade desceu de 32,6%, antes da implantação do sistema, para 3,7%.