Oescritor angolano Luandino Vieira, Prémio Camões 2006, recusou o galardão, no valor de 100 mil euros, anunciou ontem o Ministério da Cultura. Sublinhando o seu agradecimento pela distinção, o escritor angolano justificou a decisão de não aceitar o prémio evocando "razões pessoais, íntimas".
A rejeição do prémio por parte de Luandino Vieira veio levantar uma situação inédita sobre o destino a dar ao valor do maior galardão literário da língua portuguesa. Para o "irmão" José Rodrigues, escultor, o escritor angolano vive "como um franciscano", há mais de dez anos no Convento de S. Payo, situado no alto do monte com o mesmo nome em Vila Nova de Cerveira, só não sendo "um eremita a sério" porque normalmente tem com ele a namorada.
O escultor acrescentou "Tal como havia dito, quando na semana passada foi anunciado o vencedor, o prémio não ia alterar em nada a vida do Luandino. Desde sexta-feira, são inúmeros os telefonemas para aqui, mas ele não atende. Ainda ontem almocei com ele numa tasquinha de Caminha, que apenas serve comida africana, e quando, a brincar, lhe disse que ele ia ficar rico, a sua única resposta foi um sorriso. Só hoje (ontem) é que percebi o significado desse sorriso".
Seja como for, "a reclusão do Luandino não quer dizer que esteja inactivo. Continua a escrever de manhã até à noite e teremos em breve um eco desse trabalho", explicou ao JN José Rodrigues.
O Prémio Camões, no valor de 100 mil euros, foi este ano atribuído, pela terceira vez desde 1989, a um escritor africano.
A escolha de Luandino Vieira, de 71 anos, não foi unânime, mas a preferência do único dos seis membros do júri que votou vencido, Agustina Bessa-Luís, ia também para um autor africano, o cabo-verdiano Germano Oliveira. A autora de "A Síbila" considerou "respeitável" que o escritor angolano tenha recusado o galardão, sublinhando que "ninguém deve tecer juízos".
O escritor angolano Luandino Vieira tornou-se no segundo autor a recusar um importante galardão atribuído em Portugal nos últimos 12 anos ao declinar o Prémio Camões. Já em 1994, o poeta Herberto Hélder recusou o Prémio Pessoa, então no valo r de sete mil contos.
Luandino já tinha ficado com um prémio por receber, mas em circunstâncias muito distintas - em Maio de 1965, quando foi distinguido pela Soc iedade Portuguesa de Escritores com o Grande Prémio de Novela pelo livro "Luuanda".
* com Luís Oliveira e Lusa