Alice (nomes fictícios) aparece com os seus alegres e irrequietos quatro anos à porta do quarto onde acabou de fazer a sesta com três amiguinhos da mesma idade. "Está aqui um bicho", grita, enquanto foge a gargalhar pelas escadas abaixo da casa da Asas, em Santo Tirso, onde vivem mais 35 menores em risco. "Habituou-se a cuidar de si. Andava na rua sozinha. É uma história de desamor e desinteresse por parte dos pais", começa a educadora Adélia.
Os amiguinhos seguem a Alice incondicionalmente e esquecem o bicho, que é, afinal, um simpático sapo de pelúcia, estirado no chão. O denominador comum das suas histórias é o abandono. "A Catarina tem a mesma idade da amiga, passava os dias ao cuidado da vizinhança e começou a ser encontrada na companhia de pessoas pouco idóneas", explica a educadora. "O Pedro tem dois anos e foi abandonado à nascença. Poderá vir a ser entregue a uns tios. O Carlos é outra vítima do desinteresse e o tribunal já decretou que vai para adopção", pormenoriza
Mas isso parece não lhes entristecer os dias. Numa correria doida pelas escadas, vão atrás da Alice."Ela é líder. Não há dúvidas sobre isso", explica Adélia. Percebe-se a razão. Alice tem discurso fluído, vontade forte, mistura-se com os adultos, sabe o preço das coisas, é despachada nas opiniões. Em duas palavras, parece precoce. Só parece porque não sabe pegar num lápis e não reconhece as cores. Em suma, "está habituada a desenvencilhar-se" e tal parece ter roubado tempo à infância. Desenvencilham-se mas são, à transparência, sôfregos de atenção. "Por muito que nos esforcemos, o rácio é de um educador para muitos. São muito carentes". Aliás, conta ainda Adélia, "quando a Catarina chegou, a Alice teve muitos ciúmes. Agora são inseparáveis".
Catarina é mais tímida. Vence a estranheza e diz "O bicho chama-se sapo. É o sapo". Ficamos esclarecidos entre risos e gritinhos, já que o Pedro e o Carlos estão empenhados em fazer rir e cansar o repórter fotográfico.
Entretanto, vão todos comer um gelado - porque a Alice assim decidiu - ao café da frente, devidamente acompanhados por uma auxiliar de educação. A casa fica impiedosamente vazia, apesar das cores das paredes, dos peluches e das caminhas apresentarem uma atmosfera aconchegante.
Bastará, todavia, entrar num quarto ao lado para se verem seis pequenos bebés. Começa um a chorar e choram todos. Entre colinhos e ternuras, distribuídos pelas auxiliares como se pode, lá se vai sabendo que o Pedrinho, de oito meses, tem uma doença metabólica, é cego, não se sabe se surdo "e não será facilmente adoptado por causa da saúde", explica Maria do Céu, a assistente social. "É filho de mãe adolescente que é filha de família desestruturada e promíscua".
Maria do Céu acrescenta que alguns destes meninos, 12, desde os mais bebés aos mais velhos, serão entregues para adopção. "Os juízes estão mais flexíveis e abertos a isto, já começam a perceber realmente o drama destas crianças e já as mandam para adopção mais cedo, para uma família que é o que elas precisam", argumenta.
Subitamente, a porta da casa abre-se e entra uma enchente de adolescentes, de borbulhas no rosto e palavras que se atropelam entre si. Agarram-se às educadoras e auxiliares, em abraços pela cintura. "Nós ganhamos". As t-shirts de vólei denunciam um campeonato renhido e a fome é negra.
Coloca-se a mesa, sentam-se os catraios e a conversa começa, do futebol, do vólei, dos Morangos com Açícar que, explica Adélia, só são vistos "na companhia de um adulto", de tudo, menos de coisas tristes. "Eu gosto muito de língua portuguesa", diz a Lili, de nove anos. Começam todos a falar das regras do vólei e, de repente, levantam-se e vão para o jardim. "Faz-me um desenho", vem o Fábio de 12 anos. "Faz-me outro desenho", regressa. "Pede ao teu colega um desenho para mim?". Desenhos feitos, arrepia caminho e mistura-se com os outros, empenhados em truques de futebol...