Mão humana está a contribuir para o avanço da desertificação
Hoje, as Nações Unidas exortam os povos e os decisores de políticas a que actuem para contrariar o fenómeno da desertificação que, de muitos modos, tem causas humanas. É Dia Mundial do Ambiente e nele conflui também o tema escolhido para 2006, o Ano Internacional dos Desertos e Desertificação. A evocação não é meramente simbólica um terço da população mundial vive em terras secas, com uma perspectiva de futuro precário, pois a fragilidade desse meio árido pode ceder espaço ao deserto. Portugal, com um terço do seu território susceptível ou muito susceptível à desertificação, partilha deste problema mundial. Por cá, reconhece-se já outra realidade, o despovoamento, uma causa e uma consequência da desertificação. Os dois processos têm mais em comum: uma vez encetados, é muito difícil ou impossível fazê-los voltar atrás.
"Não abandonem as terras áridas!" é o apelo lançado pelas Nações Unidas para este dia, que antecipa a data de 17 deste mês, quando é comemorado o Dia Mundial de Combate à Desertificação. A preocupação é clara, pois neste tipo de condições climáticas, de solo e de acesso difícil à água vivem cerca de dois mil milhões de pessoas de entre os seis mil milhões que há na Terra.
Pobreza acentuada
O problema é que, se não houver um uso sustentável desses recursos, o frágil equilíbrio pode ser rompido e as terras áridas transformarem-se em desertos.
Na sua mensagem sobre este problema, o secretário-geral das Nações Unidas, lembra que a desertificação acentua a pobreza e que o aumento de refugiados devido a condições económicas e ambientais irá exercer uma pressão ainda maior sobre os já demasiado populosos centros urbanos do litoral em todo o mundo. Combater essa tendência através de medidas preventivas e de remediação, diz Kofi Annan, será um contributo para um mundo com mais paz e segurança. Por isso, apela aos governos e comunidades para que se empenhem em tornar melhores as condições de vida, incluindo as condições naturais, nas regiões que estão nas margens dos desertos, preservando aí paisagens e culturas.
Neste domínio, as Nações Unidas têm vindo a apoiar alguns projectos locais, nomeadamente no Norte de África e no Médio Oriente, em que à tradição é dado um papel relevante, a par do acesso a novos serviços, técnicas, bens e conhecimentos.
No data hoje assinalada, as Nações Unidas concentram também as comemorações dos dez anos da iniciativa da Convenção para o Combate à Desertificação, já assinada por 191 países, e que os compromete a estabelecer programas de acção nacionais e de cooperação com a região do Mundo em que se inserem. No caso português, a região definida é a do Mediterrâneo-Norte.
A Convenção é clara quanto aos esforços a empreender a desertificação só pode ser detida e contrariada se houver mudanças de comportamento a nível local e internacional e se as políticas e projectos seguirem as regras do uso sustentável dos recursos.
Erosão elimina solos
com aptidão agrícola
Em pouco mais de quatro décadas, um terço dos solos usados para a agricultura em todo o Mundo ficou com escassa ou nula produtividade por causa da erosão. Em grande parte isso deveu-se a más práticas agrícolas.
Migrações por fuga à fome e aos conflitos As Nações Unidas calculam que cerca de 135 milhões de pessoas estão em risco de se deslocar dos seus territórios tradicionais devido à aridez instalada, à falta de condições para a agricultura e abastecimento de água. Nessas regiões, os conflitos por razões de sobreviência agudizam-se, podendo levar a fugas em massa.
Região mediterrânica com graves problemas
De toda a Europa, são os países do Sul os mais sujeitos a erosão do solo. Também é nesta faixa, em que se inclui Portugal, que é mais acentuada a susceptilidade à desertificação, por um conjunto de factores como o regime escasso ou torrencial das chuvas, a amplitude das temperaturas e o tipo de coberto vegetal. Espanha, pela sua posição geográfica mais fronteira a África e pela extensão do seu território tem parcelas mais significativas sujeitas à desertificação.
Portugal com Convenção e Programa
Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação foi assinada e ratificada por Portugal que, faz agora oito anos, aprovou o seu Programa Nacional de Combate à Desertificação, cujas acções foram então definidas como prioridade política.
Desertos instalaram-se há milhares de anos
Mudanças climáticas estão na origem de muitos dos desertos actuais. O Sara já foi uma região húmida entre cinco a três mil anos atrás. O mesmo ocorreu com o interior da Austrália. Antes disso, há dez mil anos, surgiram as manchas desérticas agora existentes na América do Norte. O aquecimento então ocorrido fez desaparecer quase todos os gelos que cobriam continentes.