Ardinas só nos quiosques
Adata é deles, hoje. Também têm um dia seu. O nome evoca pregões, correrias com um saco bojudo e pesado ao ombro, o salto acrobático dos transportes em movimento. Os ardinas foram desaparecendo das ruas e das bancas ao ar livre e acantonaram-se em quiosques. Mas não quiseram perder o nome.
São as câmaras que enquadram a actividade dos vendedores de jornais e revistas, os ardinas actuais, mercê das diferentes regulamentações sobre a exploração de quiosques e outros pontos de venda. A crescente diversidade de títulos foi também inviabilizando uma profissão dura que, ao longo de muito tempo, teve crianças a ganhar o pão de cada dia. Os ardinas surgiram em Portugal em 1864, quando do nascimento do "Diário de Notícias" e por influência da prática britânica. Hoje, estão representados através de uma estátua em plena Baixa do Porto, que se assume como uma homenagem ao "Jornal de Notícias".
Em Lisboa, foi formada há 18 anos a Associação dos Ardinas da cidade, que congrega 326 profissionais. Deixar de estar na rua, à chuva e ao sol, foi, segundo o seu sócio número um, Jaime Rocha, um dos objectivos. Também o cada vez maior número de títulos foi inviabilizando a movimentação dos ardinas pelas ruas e prédios. Antes, eles faziam a distribuição domiciliária ou colocavam os jornais debaixo da porta ou lançavam-nos para as varandas laçados num nó em cruz. A cobrança, consoante o acordado, podia ser feita só no final do mês. Segundo o presidente da Associação dos Ardinas de Lisboa, José Matias, "hoje seria impossível fazer entregas de jornais casa a casa". Restam poucos dos antigos, o sistema como cada negócio está montado já não permite isso e a vida das pessoas tem outras rotinas.
Em Lisboa, a concentração de jornais no Bairro Alto fez dali também o ponto de venda às horas a que as rotativas debitavam edições madrugada ou hora de almoço. A competição era feroz pelos primeiros maços, para cada um dos ardinas chegar aos compradores mais cedo do que os outros. As mulheres, muitas delas com origem na zona de Aveiro, eram aguerridas. Também este sistema sofreu alterações e mudou de sítio, para mais perto do Tejo. "Há pessoas que marcam vez para o dia seguinte", conta José Matias, para afirmar que alguns dos primeiros maços de jornais transaccionados nas madrugadas, por volta das cinco horas, se destinam à Estação de Santa Apolónia e aos passageiros que começam a afluir. Na rua, junto aos quiosques, afirma José Matias pela sua experiência, "os jornais vendem-se até à entrada nos escritórios e a partir daí, quem não comprou lê pela Internet". Os ardinas são hoje gente com raízes nos seus quiosques.
Vida dura logo na infância vendendo jornais pela cidade
Jaime Rocha tem agora 68 anos. Lembra-se bem de quando começou a vender jornais, na Praça do Chile, em Lisboa."Tinha oito anos, um jornal vendia-se a cinco tostões e pagavam-me um tostão", diz este reformado. Mais tarde, viria a ter uma banca e depois um quiosque, à Estefânia. Não se importa de dizer que andou descalço até entrar na adolescência, quando teve direito a umas alpercatas. Partilhou,deste modo, a imagem e as agruras da generalidade dos jovens ardinas até à década de 70. Apregoou, como muitos, os jornais que saíam da Casa da Venda situada no Bairro Alto, perto dos vespertinos "Diário de Lisboa", "Diário Popular" e "República". De lá para a zona da banca era o despique. Dias houve em que fez o mesmo percurso cinco vezes, tantas as edições dos jornais pela morte de Kennedy e pela derrocada da estação do Sodré. Mas vendeu mais quando do sorteio de andares pelo "Diário Popular" (entre dois e três mil). E quando lhe deu mais gozo apregoar uma notícia foi quando o Benfica se tornou campeão europeu, em 1961. Jaime Rocha teve mão certeira para lançar jornais dobrados até quintos andares. "Já não há quem faça", constata, admitindo que, de vez em quando, lá partia um vidro de janela ou mesmo um espelho.