"Acho que não vão aparecer mulheres suficientes", dizia um homem na casa dos 30 anos, com um sorriso que denunciava nervoso miúdo, típico de quem parte para uma aventura com muita expectactiva na bagagem. Atrás, um casal que acabava de se conhecer trocava impressões sobre o hiper-realismo americano, citando amiúde o nome do pintor Edward Hopper. Ela acabou por revelar ser galerista, mas quando ele, no auge da conversa de circunstância, tentou saber em que galeria de arte trabalhava, ela sorriu e defendeu-se "Disseram que a regras é não darmos elementos que nos possam identificar".
Atrás e à frente do repórter do JN, o homem do sorriso esganiçado, a galerista defensiva e o homem da voz persuasiva esperavam numa fila, sexta-feira à noite, para ser identificados como alguns dos 40 participantes do maior "speed dating" (ou encontro rápido - ler caixa) que alguma vez se realizou em Portugal. O JN infiltrou-se no evento para tentar perceber que tipo de solidão leva pessoas de estratos sociais tão diversos a marcar encontros com estas características, quando vivem precisamente em grandes aglomerados arquitectónicos rodeados pelos seus semelhantes.
A mecânica é simples homens e mulheres que não se conhecem de lado nenhum juntam-se numa sala, ficando elas sentadas numa mesa enquanto eles vão rodando. Cada par "instantâneo" dispõe de quatro minutos para trocar impressões entre si, sendo os temas livres. No final, os participantes fazem uma avaliação num cartão de resultados. E, se houver simpatia, a organização providencia um posterior contacto para desenvolvimento de uma relação de amizade ou algo mais.
Tudo isto pode parecer fácil, rápido e até indolor, mas o JN verificou que desconforto, ansiedade e curiosidade são, afinal, as notas dominantes, pelo menos nas dez mulheres com que o repórter conviveu em períodos curtos, mas intensos. O factor tempo revelou-se bem estudado pois, se quem nos surge à frente está nos antípodas da nossa personalidade, quatro minutos acabam por ser toleráveis; já se a pessoa dá mostras de alguma compatibilidade com a nossa maneira de ser, os quatro minutos excitam a curiosidade. De tal forma que era visível que alguns até tinham trocado os respectivos contactos telefónicos, subvertendo as regras.
Claro está que o homem do sorriso ansioso enganou-se no seu pessimismo e os 20 homens e as 20 mulheres presentes foram divididos, em partes iguais, por dois grupos etários (dos 23 aos 36 anos e dos 37 aos 50 anos). Ao JN foi dada a oportunidade de "conhecer" uma dezena de mulheres da faixa etária mais elevada.
Professoras, advogadas, economistas e até uma governanta foram sendo "visitadas" pelo repórter, numa exigente dança de cadeiras timbrada por uma sineta. Uma viúva loira, com 46 anos, perguntou ao repórter com voz muito maternal se esta era a primeira vez que fazia uma coisa destas . E depois explicou minuciosamente as suas razões para ter vindo com as suas amigas até este "speed dating" , embora tudo se resumisse com a palavra "curiosidade". Esta viúva foi o rosto de um padrão estabelecido entre as que são mães a aceitação de filhos pelo eventual "amigo" é fundamental para estabelecer qualquer relação. As duas amigas que acompanharam a loira viúva mostraram-se mais frias, sendo que uma delas não escondia o desconforto. Na conversa acabou por ir lembrando os netos e a vida conjugal.
Mas, no campo das solteiras, as regras e os cuidados na abordagem eram diferentes, como se viu no caso da profissional de saúde, de olhar penetrante, que logo perguntou se o repórter "era capaz de se apaixonar por uma mulher com 46 anos". Ou como a professora, de ar cândido, que, mal soube ser o repórter um nativo do signo Virgem, enunciou exaustivamente as qualidades e defeitos de quem nasceu num dia entre Agosto e Setembro.
Quando confrontadas com o facto de escolherem esta forma de conhecer pessoas, a unanimidade chegava na resposta "É impensável ir para um café ou para um bar conhecer pessoas".