Contemporâneo de Pomar, Resende e de Nadir Afonso, Fernando Lanhas é considerado o pai do abstraccionismo geométrico em Portugal. Com uma obra extraordinária na área das artes plásticas, o arquitecto portuense tem ao longo da sua vida abraçado, estudado e desenvolvido matérias que vão desde a arquitectura à poesia, da arqueologia à astronomia, da etnografia à geologia.
Apesar de estar prestes a comemorar o seu 83º aniversário, Fernando Lanhas, arquitecto e um dos grandes nomes da pintura contemporânea, está já a projectar a sua próxima exposição que deverá realizar-se em finais deste ano ou princípios do próximo. Não obstante ter alguns problemas de saúde, Lanhas continua a pintar diariamente e sempre que pode prossegue o seu estudo sobre ciências naturais e astronomia e, mais do que isso, continua a escrever livros sobre estas matérias. É, sobretudo, um curioso incansável, um homem que gosta da vida e do sonho, aliás, um dos seus grandes projectos é precisamente escrever um livro sobre os seus próprios sonhos, que até já começou com a ajuda de um psiquiatra amigo.
Jornal de Notícias |É arquitecto de formação e pintor por paixão. Em 2001, o Museu de Arte Contemporânea de Serralves organizou-lhe uma exposição antológica, a maior até hoje sobre a sua obra. Milhares de pessoas tiveram oportunidade de contactar com o que tem feito ao longo de mais de sessenta anos. O que sentiu?
Fernando Lanhas | Senti-me bem, ou melhor, só agora é que me sinto bem, porque foi inquietante, mexeu comigo.
Inquietante, porquê?
Porque uma exposição gigantesca, daquela natureza, naturalmente que agita, principalmente a um octogenário como eu. Mas a verdade é que a exposição em Serralves foi muito necessária para mim, porque teve uma função importantíssima ajudou-me a conhecer-me melhor, aproximou-me de mim.
Depois dessa exposição continua a pintar? Tenciona fazer mais alguma mostra?
Continuo a pintar, apesar de me sentir estragado pela idade. Mas, como sou teimoso, tento contrariar a idade. Às vezes consigo, outras não... Quando consigo, lá vou para o meu escritório (que é o meu atelier) pintar, tento fazer isso sempre, sempre que posso.
E o que está a pintar actualmente? E porque pinta?
Neste momento estou quase a concluir dois quadros a óleo, cujos projectos já tinha iniciado há vários anos. Só agora estou a acabá-los, porque a minha pintura obedece a regras e requer muitos estudos. Pinto porque é uma forma de me surpreender. Aliás a arte, toda ela, proporciona-nos formas e meios de nos surpreender e eu gosto assim. Gosto de ser surpreendido.
Para si o que é a arte?
É uma pergunta difícil que eu próprio já a fiz várias vezes a mim mesmo. Fiz tantas vezes, que até resolvi escrever a resposta. Vou lê-la(...) A arte é um fenómeno intrínseco à espécie humana. Um voo liberto e incontido pelo homem. A arte é um princípio ajustado àqueles que a fazem. É um fenómeno de intimidade ainda não entendido. Mas também é um acto de comunicação, aliás o interesse sôfrego da comunicação cai no final da primeira infância, acompanhando o uso da fala. O desenho infantil (as garatujas circulares) é reconhecido como princípio dessa necessidade de comunicação que irá continuar num sincretismo, na segunda infância. Em suma, muitas vezes a arte não parece, mas é.
Vai expor ou não?
Gostaria. Estou a preparar um conjunto de obras que gostaria muito que chegasse ao contacto com a opinião pública. Sabe que quando se está quase a fazer 83 anos, portanto, quase em fim de vida, naturalmente há sempre alguma coisa para mostrar. As doenças às vezes tiram-me a vontade, mas, por outro lado, julgo que ainda não perdi o gosto e o prazer de me surpreender e, por isso, acho que ainda poderia fazer mais uma exposição, mas ainda não tenho nada combinado. Neste momento estou mais preocupado com a execução da pintura. Apesar de me começar a faltar o nervosismo, ainda sei o que faço e o que quero fazer na pintura.