Concessão do Rivoli a privados coloca Fantasporto em risco
"Uma verdadeira tragédia". É desta forma que Beatriz Pacheco Pereira, da estrutura directiva do Fantasporto - o único Festival de Cinema Fantástico do país -, analisa o impacto da solução autárquica de privatizar o Teatro Municipal Rivoli, onde decorria habitualmente o certame e cuja 27ª edição estava já confirmada entre os dias 19 de Fevereiro e 4 de Março de 2007.
"Por mim, transferia imediatamente o festival para Lisboa", desabafa a responsável, reconhecendo depois que "o Fantas é do Porto e que não sairá daí enquanto não forem esgotadas todas as possibilidades". Só que as alternativas não abundam na cidade "Só temos duas hipóteses: continuar no Rivoli, o que não parece possível; ou procurar outro espaço. Mas no Porto não existe outro lugar com salas múltiplas e com a qualidade do equipamento técnico que precisamos. Poderia existir o Cinema Batalha, mas não tem equipamento para cinema e também está entregue a estruturas privadas. Teremos, talvez, que ser obrigados a procurar um espaço em Matosinhos, na Maia ou em Gaia. Mas qual é o lugar que nos cede as salas de graça?", questiona.
A equipa do Fantasporto que esteve recentemente em Cannes - o mais importante evento cinematográfico do Mundo -, a promover o festival portuense considera que "todo o trabalho realizado até aqui acaba de ir para o caixote do lixo". Aliás, não só o trabalho de promoção, como os contratos com os patrocinadores, que poderão sofrer um corte na ordem dos 50%. "Grande parte do nosso orçamento provinha de acordos publicitários que agora serão cancelados, porque baseavam-se em pressupostos que, mudando de sítio, deixarão de fazer sentido". O mesmo acontecerá aos contactos previamente estabelecidos com restaurantes e hotéis da cidade.
A próxima edição do Fantasporto está novamente em risco? "Já estamos cá há muitos anos. Faremos o festival de qualquer maneira", ressalva a directora. "O que não podemos é assegurar a qualidade a que habituamos o público". E acrescenta "Não sei o que fazer aos protocolos, aos acordos, às datas reservadas. O festival ficará inevitavelmente afectado. O que está a acontecer é extremamente grave", insiste.
Beatriz Pacheco Pereira vai hoje "tentar marcar uma audiência urgentíssima" com Rui Rio, que acusa de ter "tomado uma decisão muito grave sem ter consultado ninguém. Nós não fomos informados de nada; fomos completamente apanhados de surpresa depois de termos as datas do festival asseguradas. O presidente da Câmara preocupou-se apenas com a operação de engenharia financeira", sublinha. "E não sei até que ponto é que ele pode remover da cidade uma estrutura tão complexa como o Rivoli que, além de não lhe pertencer, implica mudanças sérias na vida não só do Fantasporto, mas também de outros festivais da cidade, como o Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica (FITEI)".
"A autarquia", continua, "tem que ser responsabilizada pelos eventos que fazem parte do historial do Porto. Espero que Rui Rio tenha noção do que representa mudar um festival de sítio. Como é que vamos reorganizar tudo em seis meses?"
Culturporto incógnita
Os cerca de 45 funcionários da Culturporto estão "preocupados com o seu posto de trabalho", mas "aguardam serenamente a reunião camarária da próxima terça-feira", onde esperam ser esclarecidos em relação ao seu destino. "Queremos saber quantos, como e quais os trabalhadores a transitar para a entidade que passará a gerir o Teatro Rivoli", afirmou um elemento da Associação de Produção Cultural ao JN. A proposta assinada pelo vereador da Cultura, Fernando Almeida, diz que "a entidade será responsável pela realização de todas as contratações, tanto ao nível de artistas e técnicos, como de outros profissionais", obrigando-a a dar prioridade ao "pessoal actualmente ao serviço da Culturporto", sem que isso implique que não possam candidatar-se pessoas exteriores à estrutura. Em caso de "empate" curricular, terá que ser admitido alguém da Culturporto. A cláusula não sossega os funcionários. "A Câmara cede o edifício e as suas valências, mas não os recursos humanos. Em termos legais, até que ponto pode extinguir postos de trabalho para criar um novo modelo de gestão? Em que termos serão indemnizadas as pessoas? É tudo muito ambíguo e nebuloso", conclui o funcionário.