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Do arco e do pião

N o lançamento do livro da peça de teatro "Porto Profundo", de Alfredo Correia, às tantas, entraram pelo palco dentro actores fazendo - como se dizia no Burgo - de marmelos ou marmanjos de uma seita que havia por aí. Um, mimava o ciclista, dando o pedal fictício, outro entrava de arco e gancheta (quem sabe agora o que é isso?), o terceiro vinha em carro de rolamentos.

D.Etelvina, que não falta a estas coisas e, sobre elas, fundamenta as opiniões, comentaria o assunto com pontinha de nostalgia do amor à cidade que vai desaparecendo "Gostrei muito daquele actor a entrar no palco com o carro de rolamentos. Foi fantástico. E de ouvir o som da gancheta no arco, que já não o ouvia há anos. E o volante de bicicleta, coisas que eu vi os meus irmãos fazerem e brincarem. O carro de rolamenos já foi do tempo do meu filho (dantes não os havia, os carros deles eram uma tábua com cascas de laranja por baixo e toca a andar pela Rua dos Mercadores a baixo), e ainda levava atrás outro, de boleia. O pior era a Dona Ritinha do Senhor Santos, que estava ao balcão da loja e se arrepiava toda quando ele passava. Às vezes fazia-me queixa, mas o que é que eu havia de fazer? Ele tinha que brincar e eu dizia-lhe para ir para o passeio do lado de lá, mas parecia que aquele é que lhe dava jeito. Se fosse hoje, nem passeio tinham para andar de carro, ou para jogar à sameira".

Depois, as evocações levaram-na às belas fotos de Teófilo Rego sobre o universo humano da beira-rio "Tenho aqui uma foto que me deram, da obra 'A Ribeira', por Teófilo Rego. É de três miúdos dentro de um caixote de peixe, largadas pelas escadas do muro da Rineira abaixo. É só ver a cara deles, de felicidade e alegria, naquelas caritas, por tal aventura. Para eles não havia perigo, era uma delícia virt por ali abaixo aos escorregões. Já lá vão uns tempos bons e é como eu às vezes digo 'pobres mas alegres'. Hoje têm tudo mas não têm nada de importante. O importante era ter um carro de rolamentos ou um tábua jeitosa para vir pela rua abaixo. Os carros eram feitos por eles e o martelo, às vezes, uma pedra, e era ver quem arranjava os pregos".

E as lembranças até dão para um monumento poético "É também como eu digo: O tempo mudou/Eu também mudei/ Já não canto as cantigas/Que outrora cantei".

Mas das memórias das brincadeiras faltava o pião que, nos tempos que correm, á património quase extinto. Um dia destes só o vemos nos museus e em programas destinados à divulgação dos jogos tradicionais. E com este esquecimento, conforma D. Etelvina conta, até se verifica o seguinte "O ano passado um catraio que mora no Bonfim fez anos. Fui lá e dei-lhe um pião. E disse-lhe: Agora pede ao senhor [ao meu irmão e amigo dele] que ten ensine a jogar. E o Tiago respondeu que sabia jogar o pião - e é que sabia mesmo. Disse-me que aprendeu na escola. Fiquei admirado e achei lindo ele ter aprendido". (Tem razão: uma escola que ainda ensina a jogar ao pião é coisa tão rara como o lince da malcata).

Em época de monstros e monstruosidades (reais, ao nosso lado, criados e alimentados pelo quotidiano em que nos conformamos viver, e não pela televisão) acaba por ser retemperador do espírito e música para os ouvidos ver os carros de rolamentos e ouvir o correr do arco na gancheta e o zumbido do pião "a dormir". É também das raras oportunidades da temperança e do sonho, já que, como disse (sabiamente, na argúcia dos seus seis anos) a Francisca "O telejornal, que mostra as coisas a sério, é pior e mais violento do que o CSI. Nos filmes é tudo a fingir".

Assim era, também, no faz-de-conta das nossas brincadeiras.

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