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'O jornalismo tornou-se uma indústria definida por custos e benefícios'

Dina Margato, Bruno Castanheira

A

Mário Crespo destoa entre os pivôs da televisão nacional, num país em que ser veterano no jornalismo é coisa rara. "Da minha geração, sou o único que estou a trabalhar em jornalismo. Assumo que sobrevivi, sou um sobrevivente", diz o jornalista que agora assegura o "Jornal das Nove", na SIC Notícias. Nos anos 90, Mário Crespo foi o correspondente da RTP nos Estados Unidos.

inda sente angústia antes de entrar em directo, revelou Mário Crespo, enquanto apresentava o estúdio, palco do "Jornal das Nove" que apresenta na SIC Notícias. Foi nesse cenário que lembrou que na RTP conduziu também o noticiário das nove. O regresso ao ecrã na SIC Notícias deu-se através de Cândida Pinto, quando era ali directora. Desta vez, não foi ele que procurou a tarefa. Trabalhava na área Internacional, mas nos bastidores, e não projectava apresentar um noticiário. Para trás, aos 55 anos, foi ele quem pediu emprego a Emídio Rangel, já depois de se ter revoltado por ser um dos "emprateleirados", transferido para o prédio em frente à sede da RTP na Avenida 5 de Outubro, a que chamaram "Clube dos poetas mortos".

|Jornal de Notícias|Há dias, entrevistou o Joaquim Letria no "Jornal das Nove", outro jornalista sénior. Os telespectadores poderão perguntar-se, afinal, onde estão os colegas da sua geração?

|Mário Crespo|Houve uma substituição demasiado abrupta de gente nesta profissão, e pessoas como o Letria, o Mário Zambujal, que ainda poderiam dar um contributo muito válido, desapareceram. E eles serão muito importantes na procura do entendimento do discurso oficial, a tentar descodificá-lo onde ele é ambíguo. É curioso que o número de jornalistas seniores diminuiu e aumentou o número de assessores de Imprensa seniores.

Carlos Fino, agora conselheiro de Imprensa na Embaixada portuguesa no Brasil, disse, recentemente, que a profissão de jornalista está a ficar com o prazo de validade de jogador de futebol, só se aguenta entre os 20 e os 40?

Pois, ele com a experiência gelada que teve é um bocado mais catastrofista. Ele, o Letria e eu chegámos a trabalhar juntos. Mas também acho que isso depende do indivíduo, há quem se tenha resignado ao desaparecimento. Nós vivemos num meio que foi extremamente politizado, a tua cor política era determinante. Quando cheguei de África do Sul, as pessoas eram avaliadas pelas suas escolhas políticas. Antes, acho que ainda era pior.

A sua geração foi afectada pela colagem desses rótulos.

Foi profundamente afectada. E ainda se nota isso, temos um sindicato que é eminentemente politizado. O presidente do Sindicato fez parte de uma lista eleitoral, tem todo o direito de o fazer como cidadão, mas como representante desta profissão tem de flutuar fora destas áreas de influência, é capaz de não ser assim tão legítimo.

Voltando à questão, onde está a sua geração?

Muitos dedicaram-se à assessoria, muitos são reformados e pré-reformados. Houve tentativas na escrita. O único brilhante que vi nessa zona foi o Miguel Sousa Tavares, as restantes iniciativas foram quase todas medíocres.

O jornalismo perdeu e quem ganhou foi a assessoria?

O jornalismo converteu-se numa indústria, está cada vez mais definido pelos custos e benefícios. É mais barato fazer uma primeira página com uma bela fotografia do que com uma prosa de investigação. Essas opções são conscientes. E o grave é que isso acontece na estação privada, e ela tem todo o direito, e na pública. Também o sector público opta pelo "tabloidismo". Há um sacrifício do conteúdo à forma. Não se investe em investigação.

A geração mais nova também será mais vulnerável aos interesses dessa indústria?

Há falta de preparação. Têm em cima de si uma carga de expectativas tremenda vinda dos cursos. Isto é uma fase da Imprensa. Em qualquer país, numa conferência de Imprensa, pergunta-se, questiona-se. E repare-se que ainda agora se disse que o que passou pelas Lages foi "material bélico não letal". Isto é paradigmático. O que quer dizer isto?

Os jornalistas questionam pouco?

Não questionam, simplesmente. São capazes de pôr uma fotografia excelente e escrever afinal era "material bélico não letal".

Instalou-se a passividade?

Sim. É que o jornalismo radical não se faz só indo para o Líbano ou Iraque. Faz-se numa conferência de Imprensa aqui em Lisboa. Não tem de ser descortês, mas, por princípio, tem de ser adversário. Senão, não vale a pena, para isso estão lá os assessores todos.

Essa é a maior falha do jornalismo de hoje?

A pior é a dos chefes de redacção. No meu tempo, eram figuras míticas, que actuavam com vigor em questões de forma e conteúdo.

Como avalia os jornais de hoje?

Tenho de procurar em vários. Um diz que Fidel Castro está vivo, outro diz que não se sabe. Não podemos aceitar sem provas. No caso das armas de destruição massiva, devíamos ter questionado de outro modo. Temos um alerta de grandes dimensões em Londres, e ainda ninguém sabe o que se está a passar.

Vivemos numa sociedade adormecida pelos media?

Obviamente. Deveria haver organismos que deveriam estar à margem de tudo isto. Organismos, pagos pelo contribuinte, para defender a abordagem mais purista na notícia, como é caso dos órgãos de Estado. Deixar o pormenor e a interpretação flutuar na imprensa e canais privados.

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