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Clonagem aumentou dúvidas sobre a segurança dos cartões

Helena Silva, Henriques da Cunha

Clonagem aumentou dúvidas sobre a segurança dos cartões

Uma semana depois de detectada a clonagem de cartões multibanco, as centenas de pessoas lesadas da Benedita (Alcobaça) e do Cartaxo, procuram que as suas vidas regressem à normalidade. O que não é fácil o dinheiro que lhes desapareceu das contas ainda não foi reposto, nem sabem quando será, e a insegurança é, ainda, o sentimento dominante. Tanto mais que surgem relatos de lesados que asseguram não ser clientes dos dois estabelecimentos apontados como estando na origem da fraude: os postos de combustível da Benedita e do Cartaxo. Entre os dias 2 e 6 de Agosto, terão ali sido ali colocados chips que copiaram a informação dos cartões. Segundo a entidade gestora do sistema, 300 foram afectados por transacções indevidas.

Tentando controlar, a custo, as lágrimas que teimam em aparecer sempre que fala do caso, Maria Dias, moradora na Benedita, ainda mal acredita no "pesadelo" em que se transformou a sua vida. O cartão do marido, único com conta bancária na família, foi copiado e os burlões levaram-lhe todo o dinheiro que tinham. "Ficámos sem nada a meio do mês e só tentamos arranjar maneira de conseguir, pelo menos, alimentar a nossa filha, de nove anos", conta. Não percebe como foi possível mexerem na sua conta. Ainda para mais porque a família não tem carro e nunca usou o cartão em nenhum posto de combustível, explica, expressando apenas o desejo de que "o banco reponha o dinheiro, como prometeu, o mais rapidamente possível".

Na freguesia, a fraude atingiu duas centenas de pessoas. E, para além disso, os bancos cancelaram, à cautela, outros cartões que efectuaram movimentos locais suspeitos. Apesar de nem todos os lesados estarem a passar por dificuldades económicas, o comércio local já admite começar a ressentir-se do problema.

Recurso aos cheques

Sem cartões, os clientes reduziram as compras nas lojas. E vêem-se impossibilitados, também, de fazer levantamentos nas caixas. Muitas compras são, agora, pagas por cheque. Um sistema que não agrada a todos os profissionais do comércio, devido à possibilidade de, alguns, não terem provimento.

"Já há muito tempo que não recebia tantos cheques para pagamento como agora", explicou Alice Joaquina, proprietária de uma mercearia.

Jorge Vasco, presidente da Associação Comercial de Alcobaça, assegura que a instituição ainda não foi contactada por nenhum comerciante devido à situação da clonagem. Mas admite que "ainda é tudo muito recente, as pessoas estão na expectativa, para ver o que vai acontecer".

A Junta da Benedita, segundo João Ferreira Boita, não tem conhecimento de que a clonagem tenha deixado alguma família em situação desesperada. "Há sempre casos de pessoas a passar necessidade e, com uma situação destas, terão ficado ainda pior. Mas não pediram auxílio", assegura.

Dinheiro no bolso

No Cartaxo, o número de lesados com a burla foi, até à data, em menor quantidade cerca de quatro dezenas. Pelas ruas, toda a gente fala no caso e, nos bancos, poucos são os que arriscam, agora, fazer levantamentos nas caixas exteriores.

"As pessoas sentem-se inseguras porque, na verdade, ninguém sabe muito bem como foi possível uma coisa destas", considera Ernesto Melo, um dos moradores, lesado com a fraude. Detectou, no dia 20, que havia um levantamento suspeito na sua conta, no valor de 200 euros. No dia seguinte, o banco esclareceu-o sobre a fraude. De então para cá, alterou a sua forma de lidar com os cartões.

"Prefiro ir ao banco e levantar dinheiro suficiente para os pagamentos e despesas dos dias seguintes", explica, admitindo, contudo, não se sentir tranquilo por andar, agora, "com tanto dinheiro no bolso".

Novos equipamentos

Nos postos de combustível suspeitos, a movimentação é, segundo os responsáveis, "a habitual". A única diferença é que, desde terça-feira passada, os antigos sistemas de pagamento foram trocados por outros, que oferecerão mais segurança. "Dizem-nos que este sistema detecta logo se houver alguma fraude e a máquina bloqueia", explicou João Vinagre, proprietário das bombas da Benedita.

Os funcionários dos espaços são obrigados também a outros procedimentos de segurança, recolhendo o sistema de pagamento para o interior quando encerram o serviço, à noite.

Gestora do sistema garante segurança dos cartões

Em Portugal circulam 17 milhões de cartões bancários, responsáveis por 1,5 mil milhões de transacções por ano, segundo a SIBS, ou seja, mais de 4,1 milhões de transacções por dia, em média. A estes dados, divulgados esta semana, quando se registaram novos casos de fraude envolvendo algumas centenas de cartões clonados, a entidade gestora da rede Multibanco acrescenta que "a rede portuguesa continua a apresentar elevados indicadores internacionais de segurança". O número de casos de "skimming" - método de clonagem feito com captura de dados do cartão através da colocação de dispositivos de leitura falsos nos terminais - registados em Portugal é "ainda um sétimo do que se passa em toda a Europa", segundo um responsável da SIBS. No caso da Redunicre, de terminais instalados nas lojas, os níveis de fraude são "dez vezes inferiores aos da média europeia", diz fonte da Unicre.

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