O Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, abre hoje uma temporada de espectáculos que será uma aposta para conquistar públicos mais alargados. Uma orquestra residente - Divino Sospiro -, dois novos espaços para concertos e uma sala de leitura são as grandes novidades da programação 2006/2007, a primeira da inteira responsabilidade de António Mega Ferreira. Numa entrevista recente ao "Jornal de Notícias", o homem que em Fevereiro passado assumiu a presidência da Fundação CCB afirmou que esta é uma temporada de "transição", que serve para testar, sobretudo, as apostas na música contemporânea e na música erudita. Aliás, abrir o espaço à pluralidade musical, o que passa também por privilegiar o jazz, é um dos objectivos do presente cartaz. A dança e o teatro ocupam também lugar de destaque numa programação marcada, ainda, por ciclos dedicados a Mozart e Shostakovich, festivais e o regresso do pianista Keith Jarrett à capital portuguesa. No início de 2007 , outro regresso o da ópera ao CCB. Ana Vitória e Isabel Peixoto
Quando, às 21.30 horas de hoje, se ouvirem os acordes iniciais do concerto daquela que é a primeira orquestra residente do CCB, a Divino Sospiro, estará dado o mote a uma programação que se caracteriza por uma forte aposta na música. Sob a direcção de Enrico Onofri, também violino solista, a orquestra barroca vai interpretar obras de Corelli, Scarlatti, Avondano e Vivaldi, no auditório ao ar livre situado no caminho pedonal do CCB. O acordo estabelecido entre o CCB e a Divino Sospiro implica o acolhimento das residências artísticas da orquestra - o que já vinha a ser praticado desde a sua criação, em 2004 -, bem como a realização da primeira gravação da orquestra para a etiqueta Zig-Zag. Neste quadro, ao programa de concertos da Divino Sospiro juntam-se as propostas do CCB, com destaque para o concerto do dia 10 de Novembro próximo, dedicado a Mozart, o espectáculo de 24 de Fevereiro, com o qual se assinala o quarto centenário da estreia de "L'Orfeo", de Claudio Monteverdi, e a participação de elementos da orquestra no concerto de 3 de Abril, dedicado ao tema "As sete últimas palavras de Cristo na cruz". Neste espectáculo, serão oferecidas duas declinações a clássica, em versão de quarteto, da autoria de Joseph Haydn, e a contemporânea, composta por Sofia Gubaidulina e executada pela OrchestrUtopica.
A programação que hoje arranca no Centro Cultural de Belém não serve de teste apenas às novas apostas musicais foram também criados dois espaços experimentais. O chamado Auditório 3, no centro de exposições, funcionará como um meio-termo entre o pequeno e o grande auditórios e será desmantelado no final da temporada. Já o Auditório Bomtempo (assim designado em homenagem ao compositor português João Domingos Bomtempo, que viveu entre 1775 e 1842) está instalado ao ar livre, no caminho pedonal de entrada do CCB. A arquitectura permite que, nessa zona, se obtenha uma excelente acústica, e o facto de se tratar de um auditório a céu aberto fará com que seja utilizado essencialmente no Verão. É neste espaço que vai decorrer o concerto inaugural de hoje, pela orquestra barroca Divino Sospiro.
Shostakovich e Mozart entre os clássicos evocados
O CCB associa-se às comemorações mundiais do centenário do nascimento de Dmitri Shostakovich, compositor russo que foi referência do regime soviético. O ciclo em sua memória vai decorrer de 24 deste mês a 30 de Novembro, incluindo a primeira execução integral dos Prelúdios e Fugas Opus 87, pelo pianista português por Filipe Pinto-Ribeiro, e o repertório de câmara para piano. Aborda-se ainda a relação de Shostakovich com a poesia do seu tempo e ouvir-se-ão exemplos da sua vasta produção de música para filmes (com a projecção de "Nova Babilónia" e a trilogia de "Maxim"), além das suas afinidades com o jazz. "Ano Mozart" é outro dos ciclos evocativos de grandes compositores que o CCB incluiu na nova temporada de espectáculos. "Mozart, o chiaroscuro das paixões" é apresentado a 10 de Novembro e, entre os dias 4 do mesmo mês e 2 de Dezembro, serão projectadas em vídeo algumas das principais óperas do compositor austríaco.
Ainda em Novembro, dias 11, 12, 18 e 19, o público poderá assistir a uma sessão integral das sonatas para piano, por António Rosado e Jorge Moyano. "A flauta mágica", filme de Ingmar Bergman realizado em 1975, no dia 14 de Novembro, e um concerto a 5 de Dezembro fecham o ciclo dedicado a Mozart.
Nos dias 22 e 23 do corrente, a Compagnie Marie Chouinard apresenta no CCB uma obra feita por encomenda para o Festival Internacional de Dança Contemporânea da edição de 2005 da Bienal de Veneza . Numa nova criação de Marie Chouinard, dez intérpretes executam variações sobre o exercício da liberdade, apropriando-se de diversos suportes muletas, cordas, próteses, barras horizontais e arreios.
Já a componente teatral da nova programação tem início no próximo dia 20, com "Dimas", uma co-produção CCB/Viriato-Teatro Municipal que fica em cena até dia 24. É uma viagem ao labirinto do esquecimento, do amor e da morte, numa oscilação entre a luz e a escuridão interiores. "Debaixo da cidade", também uma co-produção, desta feita com a APA (Actores, Produtores, Associados), é apresentada de 25 a 30 deste mês.