Mães vigiam 110 alunos
e ajudam a limpar escola
azul da bata destaca a figura de Conceição entre outras mulheres paradas no recreio da Escola EB1 do Vinhal, em S. Cosme , Gondomar. Aliás, é a bata azul que a legitima nas funções de vigilante e de responsável pela limpeza da escola, trabalho que, desde o dia 11, teria de fazer sozinha, caso não tivesse ajuda solidária de cinco mães. Conceição, que também é mãe naquela primária, é uma das três pessoas que constam do quadro de pessoal auxiliar. Falta, porém, contratar duas.
Uma virá na próxima segunda-feira,colocada pela Junta de S. Cosme, mas apenas por três horas e para ajudar no refeitório. A outra deverá surgir através de uma solução que o Agrupamento de Escolas procura entre os rescursos humanos existentes. Que já são poucos. Até amanhã, as mães continuarão a dar o seu tempo a vigiar entradas e saídas e a manter a escola limpa. Receia-se, todavia, que as duas trabalhadoras não sejam, mesmo assim, suficientes para abrir o refeitório na segunda-feira. E, se assim for, os pais prometem passar "da colaboração à reclamação".
"Tudo em polvorosa"
É, de facto, o refeitório, que tem 42 lugares para 110 alunos, que está na origem da situação insólita que se vive na Escola do Vinhal. O ano lectivo teve início oficial no dia 11. Nessa altura, soube-se que o refeitório só poderia abrir uma semana depois por falta de pessoal auxiliar. Os pais aceitaram. Durante os primeiros dias de aulas, Conceição, contratada, em Agosto, a prazo por um ano, pelo Ministério da Educação, foi a única a desdobrar-se em várias tarefas. Valeu por três.
Na última segunda-feira, todavia, quando os pais chegaram, de manhã, à escola souberam que, afinal, o refeitório não iria abrir. "Ficou tudo em polvorosa", conta o presidente da Associação de Pais, Cândido Xavier, que tratou de saber as razões junto do Agrupamento de Escolas de S. Cosme. Foi dito que as escolas que tinham refeitório pela primeira vez (caso de Vinhal) só funcionariam a partir do dia 25.
A associação tratou de reunir os pais. Discutiram-se formas de conseguir a resolução do problema. "No meio do debate, houve mães que se propuseram ajudar a vigiar as entradas e saídas de alunos durante o tempo de ausência da única contratada da escola", relata Cândido Xavier. Assim tem sido. Assim será. Até amanhã.
"Dou também uma ajuda na limpeza. Não custa nada manter a escola limpa. Faço-o pela minha filha e pelos outros", contou, ao JN, Valéria Castro, a mãe a quem coube, ontem, ficar no portão da escola entre as 16. 15 e as 18.15 horas. E outras seguir-lhe-ão o exemplo. Aliás, no dia da reunião de pais "não ficou nada por arrumar para não sobrecarregar Conceição. As mães trataram de deixar tudo no sítio", afirma Cândido Xavier.
A responsável pelo Agrupamento de S. Cosme garantiu à Associação de Pais que pediu, por duas vezes, ao Ministério da Educação a contratação de uma auxiliar para a Escola do Vinhal. A resposta chegou agora não há mais contratações. O argumento baseia-se no rácio antigo que ditava que para as cinco turmas da escola só há lugar a um funcionário. O agrupamento procura soluções "em casa", se bem que se saiba que há pouco pessoal.
"Solidária, mas não abusem"
Valéria Castro
Desempregada
A timidez de Valéria Castro, 32 anos, baixa-lhe a voz. Foi a custo que lhe saíram palavras sobre o seu acto voluntário de ajudar pais e alunos da Escola EB 1 do Vinhal, em S. Cosme, Gondomar, na vigilância e limpeza. É uma das cinco mães que se ofereceram para resolver, temporariamente, um problema que é da Junta e do Ministério da Saúde. "É uma forma de ser solidária. Mas não abusem", diz Valéria, mãe de Daniela, aluna do segundo ano, e desempregada recente de "Lear Corporation", empresa deValongo, que, até Dezembro, vai fechar portas.Valéria chegou ontem à escola pouco depois das 15 horas. Chegou mais
cedo . Só teria de ficar
à porta a partir das
16. 15 horas e até às 18.15. Amanhã, serão outras mães a fazer esse papel.