Director
José Leite Pereira

Director Adjunto
Alfredo Leite

Subdirector
Paulo Ferreira
 

Somos todos marionetas que derretem

Marta Neves, Pedro Correia

Omomento durou pouco mais de 30 minutos. Uma escassa meia hora comparada com os vertiginosos dez dias em que a artista brasileira Néle Azevedo criou o "Monumento mínimo"- intervenção plástica constituída por mil estatuetas, de 20 centímetros, feitas de gelo - incluído na programação do Festival Internacional de Marionetas, que este ano adoptou um novo modelo, reunindo as mais diversas artes.

Ontem, pontualmente às 17 horas, a Praça D. João I, no Porto, começou a ser habitada por figuras de gelo, homens e mulheres, que com a ajuda do público presente ficaram sentados na escadaria frontal ao Teatro Municipal Rivoli. "É lindíssimo! Tem um grande impacto visual. Ao contrário dos grandes monumentos que só chamam a atenção pelo seu tamanho, estes seres tão pequeninos e efémeros vão ficar para sempre guardados no coração", comentou Lara Soares, artista plástica, de 24 anos, que durante quase duas semanas, como voluntária, acompanhou de perto todo o trabalho de preparação de Néle Azevedo.

A ideia da artista de Minas Gerais era "ir contra os padrões dos monumentos clássicos, feitos só para enfeitar e que pouco funcionavam como memória".

Os aplausos que se ouviram, após a visão completa da instalação, coincidiam com a opinião generalizada de que se assistiu a um "momento único", onde se deu largas "à retrospecção e ao sonho".

De facto, à medida que as peças derretiam, a questão da metáfora que ali estava subjacente - todos somos marionetas - foi comentada em vários grupos. Tal como disse, ontem, Néle Azevedo "Não há morte, apenas uma transformação da matéria".

O projecto, que já foi apresentado no Japão, Brasil, Cuba, França e Alemanha, conheceu no Porto a sua maior projecção. E emocionada, entre largos sorrisos, a artista desabafava com amigos "Foram as condições ideias, mas a obra está ainda em aberto".

O stress dos preparativos

Uma hora e meia antes da apresentação de "Monumento mínimo", vivia-se uma grande agitação na peixaria do "senhor Joaquim", espaço na rua do Bonjardim, usada por Néle Azevedo, durante duas semanas, como oficina.

Não havia tempo para conversar. As figuras em gelo eram retiradas, uma a uma, de arcas frigoríficas e acamadas em caixas de esferovite, usualmente utilizadas para conservar o peixe.

A brasileira seguia atenta todos os passos dos três colaboradores. A tensão sentia-se no ar. Era preciso demorar o menos tempo possível - dada a curta esperança de vida das figuras.

As caixas eram forradas com papel de jornal e, depois de preenchidas por duas camadas de peças , Néle tinha o cuidado de colocar "gelo seco" no topo.

"Não te enerves agora. Está bem Néle?", pedia um ajudante. A artista, entre pequenos sorrisos, deixava escapar uma ladainha "Isto é mesmo coisa de doidos!".

Depois de embaladas as duas dezenas de caixas, e porque "ainda faltavam 50 minutos", foi tempo de a equipa tirar algumas fotografias. O "senhor Joaquim" era um homem visivelmente emocionado. "Foi uma experiência muito boa. Estou tão satisfeito quanto a Néle". A brasileira, enquanto se despedia com um "desculpa aí a bagunça", dizia baixinho "Vamos esperar para ver, vamos...".

Monumento da repetição

As duas carrinhas que transportaram lentamente o material chegaram à Praça com meia hora de antecedência. Na altura, apenas algumas pessoas cruzavam a Praça na sua rotina normal.

Quando faltavam 15 minutos para as cinco da tarde, Néle Azevedo começou a espalhar as caixas pelo patamar da escadaria. O aparato da situação levantou a curiosidade de quem passava. Tanto que em apenas cinco minutos a confusão estava instalada, com a artista a convidar o público a intervir - oferecendo para o efeito um par de luvas - e centenas de pessoas a acotovelarem-se para escolherem o melhor sítio.

A mentora do projecto, apesar da baixa estatura, conseguiu liderar a "acção", posicionando as pessoas por toda a escadaria. O momento era simples "Basta espalharem os bonecos de cima para baixo", apelava a artista.

À hora marcada, coube a Néle o prazer de abrir a primeira caixa e colocar uma figura no topo da escadaria. Em segundos, o local ficou repleto de voluntários e simples curiosos, que sem querer, atrapalhavam as movimentações. Tornou-se complicado convencer as pessoas a descerem até à Praça, "para todos poderem usufruir de uma vista global da obra".

No fim, ninguém quis contar se ali estavam mesmo mil estatuetas. Enquanto elas derretiam, a emoção invadia os olhares dos quem estava perante um monumento único.

A solenidade da ocasião não resistiu ao clima informal proporcionado pelas dezenas de amigos que fizeram questão de associar-se, ontem ao final da tarde, no Rivoli, à homenagem a Isabel Alves Costa feita pelo Governo francês. Ao entregar o galardão correspondente ao grau de Cavaleiro das Artes e das Letras, o cônsul geral no Porto, Philippe Barbry salientou "o longo percurso de cumplicidade entre a homenageada e a cultura francesa", expressa "nas várias instituições com as quais já colaborou". Uma longuíssima ovação da assistência, em que se incluíam nomes como Ricardo Pais, Nuno Cardoso ou Marcelo Mendes Pinto, seguiu-se à breve intervenção de Alves Costa, na qual leu um texto de Marguerite Duras. No final, a homenageada afirmou ao JN que "a condecoração representa uma emoção fortíssima, devido à minha relação intensa com a França". Rejeitando "leituras políticas", a directora do Festival de Marionetas do Porto acrescentou que o tributo "é mais um alento para prosseguir a actividade", escusando-se, porém, a confirmar se tenciona continuar à frente da direcção do Rivoli Teatro Municipal. Sérgio Almeida

Reformado

Li no Jornal de Notícias sobre este acontecimento e resolvi trazer as netas para elas também verem. Achei uma obra maravilhosa. Nunca tinha visto nada do género. Só lamento que Rui Rio não esteja presente, mas a Cultura passa-lhe ao lado.

Estudante

Não tenho palavras! Foi extraordinário como, de repente, isto ficou tão belo. Pena as peças não ficarem para sempre. Sou do Recife e estava a a pensar que uma obra destas só podia, mesmo, ter sido imaginada por uma brasileira.

Estudante

Gostei muito. Foi tudo muito giro. Pena que os 'senhores' se derretam. Vim com o meu avô e com ajuda dele também acabei por participar. Consegui colocar três bonecos (todos homens) na escada.

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