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Cenário hip hop português é cada vez menos marginal

Natacha Palma

Habituadas a outro tipo de sons, como o chiar de pneus e o arranhar de travões de mão, as cinzentas paredes de betão armado do parque de estacionamento da Casa da Música, no Porto, estranharam, com certeza, o movimento que ali, ontem, se fez sentir. Em vez das várias dezenas de automóveis que todos os dias ali permanecem, à espera dos donos, o parque foi invadido por dezenas de jovens de bonés à banda, calças descaídas e sweat-shirts largueironas e com capuz. E dezenas de meninas vestidas à Paris Hilton e até muitos pais "cool" com os filhos pequenos pela mão.

São assim os adeptos da cultura hip hop, também ela cada vez mais heterogénea e cada vez menos marginal. Essa pareceu, pelo menos, ser uma das conclusões que se puderam tirar da segunda edição do HIPHOPORTO que decorreu ontem, ao longo de quase dez horas consecutivas, repletas de concertos, breakdance, graffiti e deejaying.

Em crescimento

Dado o tempo instável que se fez sentir na cidade do Porto, o festival, uma das poucas iniciativas de divulgação da cultura hip hop a nível nacional, teve de se mudar da Praça Exterior, local inicialmente previsto, para o parque de estacionamento. Ali, o evento foi encontrar o ambiente estereotipado da cultura hip hop urbano, marginal, sombrio, enevoado, escondido.

E se a mudança até agradou a alguns, aos mais novos, houve quem tivesse preferido um espaço aberto, não só em nome da acústica, mas também para que a visibilidade do evento fosse maior.

"O hip hop não é necessariamente marginal ou feito por jovens revoltados. Embora continue a passar uma mensagem de intervenção, o hip hop está cada vez menos fechado", explicou João Oliveira, autor de graffitis.

Ainda assim, o festival foi reconhecidamente um êxito, tanto pelo público que atraiu - não haviam passado ainda duas horas desde o início e já tinham dado entrada no espaço mais de duas mil pessoas - , mas também pela forma como deu a conhecer algum do hip hop feito um pouco por todo o país, desde o Porto até ao Algarve.

"Comecei a ouvir hip hop praticamente desde que começou em Portugal, nos finais dos anos 90 e, nessa altura, era praticamente impossível fazer festas deste género. As festas que se faziam eram pequenas e pouco frequentadas. Hoje, nota-se uma evolução muito grande, embora ainda se sinta que tem muito que crescer. O hip hop português ainda está numa fase um pouco sombria", continuou João Oliveira. "Falta aos portugueses a experiência dos MC's norte-americanos, por exemplo. Enquanto que aqui ainda estão na casa dos 20, no máximo 30 anos, nos EUA têm 50 e até 60 anos, o que prova logo à partida a longa experiência que têm".

Bruno Costa, outro espectador, preferia ter visto nomes estrangeiros no cartaz, como Fat Joe ou 50 Cent. "Nota-se que o hip hop português tem evoluído, mas falta-lhe mais beats e melhores rimas", avaliou.

A opção por não incluir um cabeça de cartaz estrangeiro no programa, ao contrário do que aconteceu o ano passado, foi propositada. Segundo Filipa Leite, programadora do evento, um dos objectivos passou por divulgar o hip hop português. O outro foi o de levar jovens, sobretudo dos 13 aos 19 anos, à Casa da Música de forma a mostrar-lhes que o espaço tem as portas abertas a todas as pessoas e a todos os géneros musicais.

Com as fortes batidas vindas do palco como som de fundo e com os breakdancers "Gaiolin Roots" a desafiar a gravidade ali ao lado, os "Nós Team", especialistas em graffiti, agitavam as latas de spray e pintavam sobre telas. Sob o tema "Fantasia", os "writers" faziam nascer a figura de uma fada, sob o signo da beleza, e a de um anão, senhor de sabedoria, as duas entidades como que emergindo de um livro aberto.

"Queremos passar a ideia de que todos temos um pouco de fantasia no nosso dia-a-dia, quando andamos com a cabeça na lua", contou Bruno Mendes, um dos elementos da "Nós Team".

Oriundos de vários concelhos do Grande Porto, os "Nós Team" pretendem, antes de mais, divulgar a arte do graffiti na sua vertente "hallfame", ou seja, a vertente que envolve várias pessoas a trabalhar um só tema. A mensagem, essa, passará sempre por temas como a luta contra a pobreza ou contra as drogas, entre outros. "Longe do lado marginal que viveu durante muito tempo, o graffiti é cada vez mais respeitado, mais apreciado. Falta agora às câmaras municipais legalizar muros que pudessem ser intervencionados de dois em dois ou de três em três meses", concluiu.

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