Joana Carneiro, 29 anos, fez o curso de Direcção da Academia Nacional Superior de Orquestra, em Lisboa. Em 2002 venceu o prémio da Young Musicians Foundation, tendo prosseguido estudos em Londres com os maestros Christoph von Dohnanyi e Kurt Masur. Nos EUA terminou doutoramento na Universidade de Michigan. É hoje assistente na Orquestra Filarmónica de Los Angeles.
Joana Carneiro, uma das mais destacadas maestrinas da actualidade, é hoje homenageada na 2.ª Gala de Prémios da Fundação Luso-Brasileira. Ao JN, a maestrina formada há mais de uma década diz estar ainda na infância da sua vida profissional.
Jornal de Notícias | Este não é o seu primeiro prémio. Quando as distinções se tornam regulares, mantêm o mesmo impacto emocional?
Joana Carneiro|Têm sempre um significado especial, um peso elevado e profundo. Neste caso, é realmente especial porque se trata da Fundação Luso- -Brasileira, uma instituição de grande peso nacional e internacional em termos culturais. Ao recebê-lo sinto um grande estímulo para continuar - e sentido de responsabilidade reforçado.
É o conservadorismo no meio musical que explica o facto de ainda serem tão poucas as maestrinas na alta-roda da música?
Penso que se trata de um conjunto de factores, muitos deles comuns à história de outras profissões. A verdade é que a profissão de maestro é bastante recente e ainda mais nas mulheres.
Os motivos pelos quais resolveu abraçar esta carreira mantêm-se, após estes anos todos, válidos?
O entusiasmo é ainda maior, porque me emociono ainda mais do que antes, com a música que oiço pelo mundo fora. O que acontece hoje de diferente de há uns anos é que este entusiasmo é acompanhado por uma realidade que nem sempre é tão fácil as constantes viagens, a distância permanente da família e uma certa solidão.
A eterna vontade de aprender é o que distingue um maestro dos restantes?
Diria que esse é um ingrediente- -chave aprender sempre, através do texto musical e das orquestras que se ouvem ao longo dos anos. Mas a esse juntaria outros, nomeadamente o desejo constante de cumprir os desejos do compositor e de servir a música.
Apesar de continuar ligada ao seu país, reconhece que, para a sua evolução, seria mais difícil ter o mesmo prestígio que hoje já possui caso a sua formação tivesse sido feita apenas em Portugal?
No meu caso, foi absolutamente fundamental ir para fora, uma vez que quando terminei a licenciatura era bastante nova - tinha 21 anos - e não havia estudos pós- -graduados na minha área em Portugal. Mas não tenho dúvidas de que ter estudado em Portugal e ter começado cá a carreira foi muito importante para tudo o que tenho o privilégio de ter conseguido posteriormente.
Na temporada 2006/2007 vai ser Maestrina Convidada da Orquestra Gulbenkian. É um desafios para a sua carreira?
Sim, sem dúvida. Cresci a ouvir e admirar a Orquestra Gulbenkian e por esta tenho um respeito profundo. Fazer música com este grupo de músicos é qualquer coisa que tenho dificuldade em descrever com poucas palavras... É uma instituição com um nível musical e humano muitíssimo elevado, reconhecida pelo mundo fora.
Que conselhos daria a quem pretendesse seguir os seus passos?
Para além de estudar o máximo possível, expor-se ao maior número de ensaios, concertos, 'masterclasses', concursos, audições...
Durante a sua formação teve certamente alguma figura que lhe serviu de modelo ou inspiração. Como se vê agora no papel inverso?
Na verdade, não sinto que seja modelo ou inspiração - ainda sou muito nova e só dirijo há 11 anos. Um colega meu diz que os maestros até aos 30 anos são considerados bebés, até aos 50 são jovens maestros e depois, talvez só depois, tenham realmente algum peso no mundo da música.
Ainda faltam muitos anos até que a existência de maestrinas no topo da carreira seja considerada como algo perfeitamente normal?
Já existe uma - Marin Also, na Baltimore Symphony-, mas apenas uma. Mas o primeiro passo está dado, e cada vez mais mulheres se interessam pela direcção de orquestra.