Até dia 15 deste mês, as contas provisórias da Direcção-Geral de Recursos Florestais (DGRF) dão conta de 70.231 hectares de área ardida. Um número à primeira vista positivo, quando comparado com a média do último quinquénio (212 mil hectares), mas que é relativizado por investigadores e considerado "normal" fazendo recuar a análise à década de 90.
Numa altura em que a chamada Fase Charlie do dispositivo de combate se aproxima do final (no próximo sábado), a situação de acalmia permite já um balanço (quase) final, embora os resultados venham previsivelmente a sofrer um aumento de área ardida. Xavier Viegas, investigador da Universidade de Coimbra, acentua precisamente que tem havido "uma tendência de reduzir áreas nos sucessivos relatórios", salientando ser "pertinente a dúvida" sobre os números reais.
A ajuda da meteorologia é considerada essencial por Xavier Viegas, que destaca o facto de ter havido vários períodos de precipitação, "extremamente importantes para a redução do risco". Isso mesmo é apontado por Hermínio Botelho, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Minho, que sugere um estudo aprofundado da influência dos ventos de Leste na propagação. "Não tivemos ventos de Leste tão frequentes e fortes como em anos anteriores e eu diria que isso pode ter sido decisivo", comenta.
Ao panorama meteorológico (com índices de severidade próximos dos de 2003, mas inferiores a 2004 e 2005), Cardoso Pereira, do Instituto Superior de Agronomia, junta outra variável. "Não devemos esquecer, embora não me admire que os políticos tentem ignorar, que nos últimos cinco anos arderam um milhão e 100 mil hectares de floresta", destaca. "Áreas que, além de não arderem, funcionam como barreiras".
O que ajudará também a explicar que distritos habitualmente massacrados pelas chamas tenham sido este ano poupados. Exemplo evidente é Coimbra, com apenas 902 hectares ardidos.
Apesar das ajudas de factores externos, os três professores universitários concordam que parece haver sinais de melhorias de organização, traduzidas em factores como melhor articulação entre entidades, gestão racionalizada de recursos e utilização de técnicas como o contra-fogo. Xavier Viegas destaca ainda o efeito dissuasor de uma maior presença de efectivos da GNR no terreno e de acções massivas de sensibilização.
Melhorias no combate poderão ajudar a explicar o facto de se ter estado, este ano, longe da dimensão dos grandes incêndios dos últimos três anos, que chegaram a antigir os 30 mil hectares. Este ano, o maior registado - a 8 de Agosto, em Arcos de Valdevez - ficou-se nos 5.690.
Ainda assim, Hermínio Botelho destaca "momentos muito pontuais em que se notou que a máquina não está bem oleada" e Cardoso Pereira pede cuidado nas análises, recusando euforias. Referindo-se à meta anual de área ardida fixada pelo Plano Nacional de Defesa da Floresta contra Incêndios, que é de 100 mil hectares até 2012, alerta que "até lá muita coisa pode acontecer".
Investigação em aberto
A indeterminação das causas é uma das conclusões que salta à vista na leitura do oitavo relatório provisório da Direcção-Geral de Recursos Florestais. Num total de 112 incêndios com mais de 100 hectares, 53 continuam a ser dados como "em investigação" e 30 foram catalogados com a incómoda categoria de causa "indeterminada".
De resto, são poucas as causas que se destacam pela frequência. À cabeça surge o vandalismo, embora o incendiarismo esteja apurado em apenas uma ocorrência.
Surgem cinco situações originadas por queimadas/renovação de pastagens e quatro casos em que a ignição terá sido causada por alfaias agrícolas.
Trovoada foi a origem encontrada em três ocorrências, surgindo depois várias explicações pontuais dadas só numa ocorrência (linha eléctrica, queda de aeronave, transportes e comunicações, conflito de caça).
A leitura mais aprofundada das causas dependerá do encerramento de processos e sua inserção na base de dados. Recorde-se que até meados de Agosto não houve qualquer tipificação de causas devido a atrasos na entrada em funcionamento de uma nova base de dados, criada por ocasião da integração da antiga Guarda Florestal na GNR.