Ataxa de suicídio em Portugal aumentou 100% em dois anos - 2002 e 2003 -, gerando preocupação na comunidade médica que aguarda os números relativos aos anos de 2004 e 2005 para confirmar se a tendência se mantém. Os últimos dados revelam que se registam 1100 suicídios por ano, no país.
Portugal passou de cerca de 500 suicídios por ano, no final da década de 90, para 1200, em 2002, e 1100, no ano seguinte. Um aumento de taxa que ultrapassa os 100% e que está a deixar a comunidade médica apreensiva e na expectativa de se voltar aos anos negros das décadas de 30 e de 80, altura em que o número de suicídios foi sempre em crescendo.
"Portugal tem um problema para explicar à comunidade internacional, porque veio de 500 suicídios por ano, no final do século XX, e neste momento tem cerca de 1200 por ano, o que quer dizer que em três, quatro anos temos um aumento da taxa de suicídio superior a 100%. Isto é intrigante", sublinhou ontem Carlos Braz Saraiva, médico dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), nas Jornadas Sobre Comportamentos Suicidários, no Luso.
"Estamos a tentar saber o que de facto se está a passar, quer do ponto de vista psiquiátrico quer do ponto de vista sociológico", adiantou, explicando que faltam ainda os números relativos aos últimos dois anos, para que se confirme se, na verdade, este aumento vai persistir. "Só depois dos dados de mais estes dois anos podemos perceber se, do ponto de vista epidemiológico, estamos numa fase de crescendo", adiantou o clínico.
Sublinhando que o suicídio nunca tem uma causa isolada, Carlos Braz Saraiva explicou que o risco de suicídio é muito elevado "quando as pessoas perdem a esperança e essa perda de esperança é persistente ao longo do tempo". E a prevalência continua a colocar no cimo da tabela de estatísticas o Alentejo, o Algarve e a Grande Lisboa.
Fundador da consulta de prevenção do suicídio nos HUC, Braz Marques lançou ontem o livro "Estudos sobre o para-suicídio - o que leva os jovens a espreitar a morte", uma obra baseada nos 15 anos de funcionamento da referida consulta.
Também a nível dos para-suicídios regista-se um aumento de 25%, desde o início dos anos 90, sobretudo entre jovens, do sexo feminino. "Estamos a falar de jovens, entre os 15 e os 24 anos, que, por conflitos do quotidiano pueris aos olhos de terceiros, enveredam por comportamento de autodestruição, designadamente intoxicações medicamentosas ou corte de pulsos. Isto tem uma dimensão cada vez maior, não só em Portugal, mas em toda a Europa, o que faz a comunidade médica questionar uma série de pressupostos", sublinhou.
Por isso, defendeu a necessidade de implementação de estratégias de prevenção a nível de toda a sociedade, já que se trata "de doentes que têm dificuldades em lidar com situações de stresse e precisam de ser amparados e compreendidos", aspectos que são desvalorizados, quer por médicos quer pela sociedade em geral.