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Mulherese política

Judite de Sousa, Jornalista da RTP

A política tornou-se a última fortaleza masculina. As lideranças partidárias são masculinas.Os aparelhos partidários são controlados pelos homens. A maioria dos deputados são homens. São poucas as mulheres em lugares de governação. Nas autarquias, há muitos mais homens que mulheres e nas grandes cidades, lá estão também " eles " sentados nas cadeiras do poder local. É este o retrato da posição da mulher na política Portuguesa. É claro que ao longo dos últimos anos, conhecemos mulheres que representaram importantes funções na máquina do Estado, principalmente na acção executiva. Tivemos Leonor Beleza, Manuela Ferreira Leite e Maria de Belém Roseira. Foram sempre excepções em governos constituídos maioritariamente por homens e foram também mulheres muito escrutinadas pelas opiniões pública e publicada, como se em relação ao desempenho das mulheres existisse sempre uma desconfiança latente e uma reserva quanto à sua competência e à eficácia.

Mudou o ciclo político mas a opção pelo masculino prevaleceu. José Sócrates, quando formou governo, podia ter seguido o exemplo de Espanha ou o da Finlândia onde a Presidência da República é ocupada por uma mulher e onde metade dos ministros são mulheres. Poderia também seguir o modelo Nórdico que tanto o inspira em matérias económicas e sociais. Mas não. No actual governo, só temos duas mulheres em ministérios, sendo que Maria de Lurdes Rodrigues marca pontos e assume uma importante relevância política pela natureza do seu pelouro- a educação. Se olharmos para outras esferas do Poder, o deserto feminino é total. Não temos uma mulher à frente do Supremo Tribunal de Justiça ou na Procuradoria geral da República, no Tribunal de Contas ou no Tribunal Constitucional. É pena. Assim como é uma ilusão pensar-se que são as quotas que vão revolucionar as mentalidades arcaicas que inspiram muitas das nossas cabeças pensantes e decisoras.

As últimas décadas do século XX conheceram um amplo movimento de mulheres que lutaram pela sua emancipação e pela afirmação do seu estatuto económico e social. As mulheres entraram em força no mercado de trabalho, contrariaram velhos estereotipos associados à condição feminina. Foi assumido na plenitude o lugar da mulher como sujeito mobilizador da História. Aconteceu assim em todas as actividades profissionais. Excepto na política. Não existe um modelo feminino e outro masculino de exercer o Poder. É um estereotipo, uma opinião caduca, ultrapassada. O que existem são diferenças culturais e pessoais.Talvez para as mulheres seja mais fácil abrirem-se às emoções, terem uma outra capacidade de escutar.

Por tudo isto, é interessante acompanhar o debate que existe em França e as divisões no interior do Partido Socialista Francês para a escolha do candidato (a) do PSF às eleições presidenciais Francesas do próximo ano. Com o Ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, mais do que confirmado como candidato da direita, o PSF anda há meses a desgastar-se á volta da candidatura, numa atitude auto-destrutiva pela razão de que os chamados

" elefantes " do partido não querem que a candidata seja Ségolène Royal, a favorita nas sondagens e companheira do secretário-geral do PSF, François Hollande e mãe dos seus quatro filhos. Ségolène foi ministra de François Miterrand e é uma importante líder regional. É certo que tem uma visão mais pragmática e menos romântica do socialismo moderno, o que é considerado uma heresia pela velha guarda do partido. No " Segundo Sexo ", para recuperar o livro da também Francesa, Simone Beauvoir, era bom que Ségolène fosse candidata e, quem sabe, talvez um pouco mais.

Judite de Sousa escreve no JN, semanalmente, aos sábados

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