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A crise não acabou,implodiu

Paquete de Oliveira, Sociólogo e professor do ISCTE

O senhor ministro da Economia, deliberada ou indeliberadamente, não deu um tiro no pé. Deu dois. Primeiro, ao declarar que a crise acabou. Depois, ao reconsiderar que foi uma expressão infeliz, ingénua e infantil. Sabe o povo, e sabe melhor qualquer ministro, a força do ditado popular

"a emenda é pior do que o soneto". Com estas declarações, não contribuiu para melhorar o cenário social trazido pela crise. Fez o clima social de crise ter nova implosão. As pessoas não são números.

É indesmentível que os indicadores económicos que estavam na base do alegre contentamento do ministro com a pasta da economia melhoraram substancialmente. Mas são esses mesmos dados estatísticos que marcam a encruzilhada em que este Governo se encontra. Está a ser o tal "bom aluno" que merece boas notas de Bruxelas, impondo um regime de compressão financeira, económica e social à grande maioria dos seus governados. E se há uma atitude que este Governo conseguiu interiorizar na grande maioria dos portugueses foi aquela do reconhecimento que ao ponto a que chegara a situação financeira e económica do país não poderia ser adiada por mais tempo "a hora do aperto". Creio que é a sobrevalorização desta atitude que leva ao desfasamento nítido entre o aumento de manifestações de rua e greves organizadas por

sindicatos e associações corporativas e a manutenção em alta a favor da confiança no Governo que as sondagens e os diferentes barómetros indicam. Se o Governo desbaratar esse dividendo pagará por ele um elevado preço.

Por isso, não posso acreditar que se tratou de um "lapsus linguae" premeditado para incluir estas afirmações do ministro da Economia numa deliberada acçãozinha de marketing e propaganda. Só a convicção generalizada da população que o país precisa de cuidados intensivos de cura no equilíbrio financeiro atenua os efeitos perversos da autoreconhecida infantilidade verbal.

Mas há uma outra contradição nesta saga de uma nação posta a quarentena de sacrifícios para fazer o país sair da tal crise que terá de ser reparada. Uma contradição mais uma vez evidente no OE agora apresentado.

O Governo tem sido intrépido às reclamações de sindicatos, associações e corporações. Porém, não faz vingar essa mesma conduta de cortar a direito com os grandes grupos de interesses financeiros e económicos, como é flagrante o caso da Banca, ou de grupos como a Telecom, a EDP ou a Galp. O argumento de que tocar nesses sectores pode ter efeitos catastróficos

na economia a partir de instituições e empresas estruturantes na economia do país é uma visão que também concorre para traçar linhas entre grandes e pequenos, entre protegidos e desprotegidos. Há pequenos actos que põem a nu os privilégios que esses potentados, à escala do país, têm vindo a usufruir para vermos como é possível modificá-los. Veja-se, por exemplo, como a anunciada opa da Sonae sobre a Telecom, quantos efeitos benéficos trouxe ao consumidor.

O Governo é e assume-se como reformista. Aqui, deliberada ou indeliberadamente, vá lá saber-se, cognomina-se muitas mais vezes reformista do que socialista. Vasco Pulido Valente ou António Barreto e outros colunistas dizem que todas estas reformas são superficiais. Talvez sejam as possíveis. Mas, numa fase em que, cada vez mais, forças sindicais e corporativistas estão contra estas "reformazinhas" e o grande resto da população se manifesta receptivo a sofrer na pele os efeitos reformistas, é tempo do Governo demonstrar que isto de pagar a crise, mesmo com medidas superficiais, toca a todos.

Paquete de Oliveira escreve no JN, semanalmente, às quintas-feiras

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